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O bom vinho do Dão nem sequer é fruto de uma zona homogénea, embora não
se possa considerar desavisada a criação de região demarcada. Em boa
verdade, o vinho do Dão é fruto de cepas que se alimentam de um certo
tipo de solo e «bebem» um determinado tipo de sol: instalam-se em
encostas viradas a sudoeste e alimentam-se no granito porfiróide, aquele
a que chamamos «dente de cavalo». É um granito facilmente atacado pelos
agentes atmosféricos, o que quer dizer que se transforma em terra com
relativa facilidade. O que não evitou que a plantação da vinha do Dão
tivesse sido uma verdadeira epopeia humana.
Epopeia que daria o resultado merecido, sob a forma de um líquido
báquico incomparável. (…)
Por muito bons que seja, e são, os vinhos do Dão quase exigem hoje uma
«certidão de nascimento», para termos a certeza de que vamos degustar um
néctar capaz de fazer jus à fama de que goza. Quando a procura respondeu
à indesmentível qualidade do vinho do Dão, os produtores confrontaram-se
com a incomodidade de não disporem de oferta suficiente. A partir daí, e
no dizer de um conhecedor do fenómeno, «toda a uva era boa para fazer
vinho do Dão».
Como seria de esperar, a qualidade deixou de ser o que era e, como
sempre acontece nestas situações, a procura também foi refreada.
O que constituía uma fonte de rendimento segura, passou a ser mera
recordação de um lucro fácil e imediato, mas perecível. A situação já
está hoje mais corrigida, mas ainda não completamente. (…) |