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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  CANTAR OS MARTÍRIOS
Cantares mantêm tradições quaresmais

Igor Costa

 

 

Para além do simbolismo místico, Natal e Páscoa envolvem-se em costumes religiosos que hoje, em muitos casos, são apenas culturais. O Rancho Folclórico e Etnográfico do Refúgio assegurou a continuidade do “Cantar os Martírios” por mais um ano.

A origem religiosa centra-se sobretudo na temática e nas circunstâncias. O “Cantar os Martírios” é um ritual que, para lá da memória dos que ainda são vivos, era cumprido pelo povo, durante a Quaresma. Os tempos são outros, e cabe hoje ao Rancho Folclórico e Etnográfico do Refúgio garantir que a tradição se mantém. Desde que a organização cabe à colectividade, a quinta-feira santa é o dia escolhido. Este ano [2007] foi a 5 de Abril, e as vozes das cantadeiras fizeram-se sentir de um lado para o outro da Rua do Clube Recreativo, no Refúgio.

José Simões recorda-se de ouvir as 28 quadras tradicionais desde criança quando, com sete anos, passou a residir no Refúgio. O esmorecer da tradição fez com que, quando fundou o rancho local, tenha adequado o “Cantar os Martírios” à vida e à disponibilidade das pessoas. Esta é, ademais, uma das diversas recolhas que o grupo fez desde 1966. Até essa data, “era feito no meio rural, a poluição sonora quase não existia, não havia barulho, só um ou outro cão a ladrar. Não havia televisão, a população era menor, e havia a preocupação de as pessoas viverem à espera que isto acontecesse. Nem havia necessidade de parar o trânsito”. Estas são algumas das diferenças que o director técnico do rancho refugiense encontra na actividade.

Nessa altura, os cantares decorriam ao longo de todo o período quaresmal pelo que, à noite, toda a população estava atenta à espera dos primeiros sinais. “O cantador ou cantadeira subia a um ponto elevado da sua quinta – uma árvore ou a janela mais alta de casa – e cantava para alguém que lhe havia de responder do outro lado”, recorda José Simões. Como hoje, o “Cantar os Martírios” durava cerca de 40 minutos. Um canto exigente, que requeria das pessoas boa voz e bom fôlego. Durante esse tempo eram cantadas 28 quadras, divididas e com resposta. José Simões lembra-se da devoção dos locais: “Quando alguém em casa notava que se estava a cantar os martírios, a família ia toda para a porta e ali ficava a ouvir”.

Mas as pessoas vão envelhecendo e as tradições desaparecem da memória, até porque hoje poucas pessoas se lembram de quando era cantado espontaneamente. As cantadeiras de agora socorrem-se de folhas com todos os versos, evocando a divindade do corpo de Cristo e as horas da crucifixão, e exortam os fiéis a rezar. Mas antigamente, “as pessoas não precisavam de folha. Sabiam de memória, pois nem sabiam ler. Da memória passou para o papel para não se perder”, explica José Simões. Este ano, o frio foi o maior inimigo, que não deixou as pessoas sair de casa para assistir ao ritual. O “Cantar os Martírios” acontece agora em apenas num dos dias da Quaresma, “um dos mais marcantes do calendário religioso”, justifica José Simões. E é com orgulho bairrista que José Simões olha para o país e para estas pequenas marcas locais: “A nossa Beira Interior tem uma riqueza grande de tradições que o Litoral não tem. Tem outras coisas, mas não as tradições”.

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