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Também, a água desse primeiro banho
deveria ser em caso de rapaz lançada à rua para que ele
fosse andarilho, se menina era guardada dentro de casa e lançada na
“comua” para que fosse caseirinha. As mães punham ao pescoço no
berço e até na cintura das crianças, medalhinhas, figas, sino – saimões
– para as defender das bruxas, do mau olhado ou quebranto. A forma,
também, das peças de ouro estavam adaptadas às crenças que vinham dos
antepassados, quer na forma esférica ou arredondada como acontecia com
as contas de Viana ou nas formas lunulares que nos aparecem nas
arrecadas, nos brincos à Rainha, nos brincos de “chapolas”, parolos ou
de luas. O sol e a lua aparecem-nos com simbologias antigas em que a
Deusa Lua era a filha do grande Deus Sol (civilizações Egipcía e Maia),
dizendo-nos que, quer a lua quer o sol, sempre exerceram imenso fascínio
nas pessoas.
O poder de exorcismo e purificação
O mesmo podemos dizer dos triângulos invertidos. O triângulo com o verso
para cima simboliza o fogo e o sexo masculino (signo alongado); com o
verso para baixo simboliza a água e o sexo feminino (signo cheio), ambos
ligados à fertilidade.
É nas arrecadas de Viana que se constata todo este poder amulético:
a) pela forma lunular na “Janela” ou “pelicano” ou “bambolina”;
b) A presença de campainhas (antigamente chocalhos) comum em todas as
religiões no seu número ímpar. As campaínhas têm a virtude de afastar os
maus espíritos tal como o “reque-reque” pelo barulho que faz;
c) Os SS de filigrana são uma estilização dos patos a voar (símbolo da
união e da fidelidade conjugal – macho e fêmea – nadam sempre juntos);
d) O triângulo invertido na parte terminal da arrecada é a estilização
de um cacho de uvas (fertilidade).
Não esquecer que os ouvidos são os únicos orifícios que não têm válvulas
e estão permanentemente abertos ao exterior e vulneráveis, quer à
entrada nos maus espíritos como à saída dos bons. Por isso, é que a
mulher do Minho tem obrigatoriamente de usar brincos ou arrecadas, mesmo
a dormir, pois tem sempre receio do mal pior: ser estéril.
Povo que lavas no rio / A Senhora da Peneda
“No princípio do primeiro escadório, cá em baixo, onde as promessas
principiavam, uma lavradeira vestida com o fato de pano preto do seu
noivar e do seu mortório, entrara para um caixão. Soubemos mais tarde
que prometera todo o seu oiro, mais aquele sacríficio de se amortalhar,
se a Senhora lhe trouxesse, vivo e são, o namorado embarcadiço, na
altura, para as bandas da Gronelândia.
E o rapaz voltara!
Logo, o casamento dele com a Deolinda Ruça marcou-se para o Natal
próximo.
Todavia, antes, a rapariga quis cumprir a jura, atravessando, sem fala,
a serra. Como andava descalça, ela, que era mimosa, trazia os pés em
sangue. Seis homens de roupa escura (entre eles o pai e o noivo!),
pegavam-lhe, agora ao caixão.
À frente, ia o padre.
E o cortejo avançou, lentamente, pelo vasto largo da romaria, subindo,
em seguida, a grande escadaria que termina lá no alto da encosta.
À porta do templo, o préstimo deteve-se.
E o sacerdote entrou sozinho, na igreja, enquanto que os homens de roupa
escura, pousavam sobre o lajedo, o caixão, para descansar um pouco.
Depois, o pai da moça procedeu à abertura da urna. Mas de súbito recuou!
Quis falar e não pôde.
Os outros debruçaram-se, então, sobre o esquife.
Foram a ver
A Deolinda estava morta.”
(Homenagem a Pedro Homem de Mello - Afife/2004)
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