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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  O Ouro do Minho – O Ouro de Viana (2)

O Uso do Ouro – Os Amuletos – As Promessas

A Mulher Fanada

Já vimos que o fio de contas e os brincos não contavam como ouro, mas sim como amuleto. A mulher nunca tirava o fio de contas do pescoço, nem o brinco das orelhas. O povo era contumaz sempre que uma mulher aparecia sem brincos: era uma mulher fanada! Tradição de tal modo importante que à nascença de uma menina eram logo perfuradas as orelhas e colocados uns brincos designados botõezinhos oferecidos pela sua madrinha de Baptismo. Atente-se, também, no antigo hábito de no primeiro banho do recém-nascido/nascida se lhe juntar moedas ou peças em ouro na convicção premonitória de ser rico/rica.

Também, a água desse primeiro banho deveria ser em caso de rapaz lançada à rua para que ele fosse andarilho, se menina era guardada dentro de casa e lançada na “comua” para que fosse caseirinha. As mães punham ao pescoço no berço e até na cintura das crianças, medalhinhas, figas, sino – saimões – para as defender das bruxas, do mau olhado ou quebranto. A forma, também, das peças de ouro estavam adaptadas às crenças que vinham dos antepassados, quer na forma esférica ou arredondada como acontecia com as contas de Viana ou nas formas lunulares que nos aparecem nas arrecadas, nos brincos à Rainha, nos brincos de “chapolas”, parolos ou de luas. O sol e a lua aparecem-nos com simbologias antigas em que a Deusa Lua era a filha do grande Deus Sol (civilizações Egipcía e Maia), dizendo-nos que, quer a lua quer o sol, sempre exerceram imenso fascínio nas pessoas.

O poder de exorcismo e purificação

O mesmo podemos dizer dos triângulos invertidos. O triângulo com o verso para cima simboliza o fogo e o sexo masculino (signo alongado); com o verso para baixo simboliza a água e o sexo feminino (signo cheio), ambos ligados à fertilidade.

É nas arrecadas de Viana que se constata todo este poder amulético:
a) pela forma lunular na “Janela” ou “pelicano” ou “bambolina”;
b) A presença de campainhas (antigamente chocalhos) comum em todas as religiões no seu número ímpar. As campaínhas têm a virtude de afastar os maus espíritos tal como o “reque-reque” pelo barulho que faz;
c) Os SS de filigrana são uma estilização dos patos a voar (símbolo da união e da fidelidade conjugal – macho e fêmea – nadam sempre juntos);
d) O triângulo invertido na parte terminal da arrecada é a estilização de um cacho de uvas (fertilidade).

Não esquecer que os ouvidos são os únicos orifícios que não têm válvulas e estão permanentemente abertos ao exterior e vulneráveis, quer à entrada nos maus espíritos como à saída dos bons. Por isso, é que a mulher do Minho tem obrigatoriamente de usar brincos ou arrecadas, mesmo a dormir, pois tem sempre receio do mal pior: ser estéril.

Povo que lavas no rio / A Senhora da Peneda

“No princípio do primeiro escadório, cá em baixo, onde as promessas principiavam, uma lavradeira vestida com o fato de pano preto do seu noivar e do seu mortório, entrara para um caixão. Soubemos mais tarde que prometera todo o seu oiro, mais aquele sacríficio de se amortalhar, se a Senhora lhe trouxesse, vivo e são, o namorado embarcadiço, na altura, para as bandas da Gronelândia.
E o rapaz voltara!
Logo, o casamento dele com a Deolinda Ruça marcou-se para o Natal próximo.
Todavia, antes, a rapariga quis cumprir a jura, atravessando, sem fala, a serra. Como andava descalça, ela, que era mimosa, trazia os pés em sangue. Seis homens de roupa escura (entre eles o pai e o noivo!), pegavam-lhe, agora ao caixão.
À frente, ia o padre.
E o cortejo avançou, lentamente, pelo vasto largo da romaria, subindo, em seguida, a grande escadaria que termina lá no alto da encosta.
À porta do templo, o préstimo deteve-se.
E o sacerdote entrou sozinho, na igreja, enquanto que os homens de roupa escura, pousavam sobre o lajedo, o caixão, para descansar um pouco.
Depois, o pai da moça procedeu à abertura da urna. Mas de súbito recuou!
Quis falar e não pôde.
Os outros debruçaram-se, então, sobre o esquife.
Foram a ver
A Deolinda estava morta.”
(Homenagem a Pedro Homem de Mello - Afife/2004)
(...)

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