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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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«Colecções Etnográficas e Museus Etnográficos: objectos e memórias da Cultura Popular» - comunicação apresentada ao Congresso de Cultura Popular  na secção Etnografia e Património Etnográfico, Maia, Dezembro de 1999

por Sérgio Lira[1]

Resumo

Aquilo a que se convencionou chamar Cultura Popular viu alguns dos seus conteúdos vertidos em colecções etnográficas e em museus etnográficos. Este movimento de cristalização da Cultura Popular conheceu alguns momentos especialmente significativos ao longo deste século, em particular em Portugal.

Um desses momentos prende-se com a actividade desenvolvida por um grupo de investigadores intimamente associados à realização do que actualmente se chama Museu Nacional de Etnologia. No entanto, antes dessa fase é possível descortinar outras etapas importantes no processo de valorização da Cultura Popular. Tal é o caso dos processos da utilização nacionalista dos símbolos e dos objectos de cultura popular realizados pelo Estado Novo, em especial ao longo dos finais da década de 30 e no decénio seguinte. O Museu de Arte Popular nasce nesta sequência e permanece até hoje inalterado em muitas das suas características. Mais recentemente é possível observar um movimento endógeno de preservação da herança da cultura popular, especialmente no que respeita à cultura material dos meios rurais que vão deixando de o ser.

Este processo de preservação da ferramenta material associada à cultura popular é, em alguns casos mas nem sempre, acompanhada de outras preocupações: preservação da memória associada aos objectos, recolha de testemunhos dos seus fabricantes e utilizadores, integração do instrumental tradicional nos ambientes que o geraram, entre outras. Por outro lado a acessibilidade a estes conjuntos de objectos compreende soluções muito diferenciadas. Há casos em que nos encontramos perante colecções que não mais são do que isso mesmo, uma vez que não garantem a qualquer público o acesso desejável; por outro lado outros conjuntos organizados em colecção foram constituídos em museus, garantindo não apenas o acesso público como também os outros requisitos que actualmente fazem parte da generalidade das definições de museu vulgarmente aceites.

Sobre estas questões versará a comunicação que propomos, incidindo na análise de alguns casos exemplares que podem ser empregues como paradigmas dos processos referidos.

Introdução

Um Museu não existe sem colecções. Parece pacífica a firmação, apesar de levantar algumas interrogações e dificuldades do âmbito teórico que têm gerado profunda reflexão e alguma dificuldade de consenso[2]. De facto, o Museu enquanto instituição, sempre se fundou na existência de colecções, assumindo esta palavra o sentido mais linear possível: conjuntos de objectos. No entanto, esses "conjuntos de objectos", no museu actual, passaram a exigir a convergência de tais e tantas condições que o termo "colecção" assume hoje em dia um carácter excepcional, quando aplicado aos museus. Uma colecção tem que ter coerência interna, implica uma política aquisitiva, exige quem dela saiba cuidar tanto nos aspectos físicos de conservação e de restauro quanto nos aspectos relacionados com a investigação científica associada aos objectos que a compõem, demanda uma clara definição das razões, dos critérios e dos processos que presidem à alienação de algum dos seus componentes, carece de acessibilidades públicas tanto em termos de alcance físico como em termos de interpretação dos objectos e dos conjuntos, origina, enfim, ainda um vasto leque de outras implicações aparentemente menores mas de vital importância para que se possa, com propriedade de linguagem, usar o termo "colecção de museu".

E se um museu não existe sem colecções isto não significa que possa existir apenas com colecções. O museu actual é composto pelas suas peças, pelas suas colecções, mas também e necessariamente, pelos seus profissionais, pelo seu público, pelos seus arquivos e bases de dados, pela memória associadas aos objectos e às colecções que cumpre ao museu recolher, preservar e estudar[3]. De outra forma o "museu" passa a armazém, bem ou mal arrumado, interessante ou desinteressante, mas tão-só armazém.

A inversa do que acima se afirmou é, no entanto, verdadeira: existem colecções (no tal sentido linear da palavra) sem museus. Colecções que até podem ter público que as visite e alguém que lhes queira muito e que delas trate o melhor que saiba e possa. Ainda assim não serão museu, se não reunirem aqueles requisitos que, hoje em dia, se consideram essenciais para que se afirme a existência de uma instituição com essa designação. Mas quais requisitos? Não entraremos em longa discussão sobre o tema, até pela inoportunidade da ocasião. Detenhamo-nos apenas em três definições tidas por actuais, ou, dito de outra forma, usualmente aceites:

Uma, é a tão conhecida definição do ICOM, aprovada em 1974 e que tem sido sobejamente usada[4]; outras duas, eventualmente menos citadas mas que introduziram elementos inovadores e de reflexão, são as definições da MA (Museum Association) do Reino Unido. A primeira data de 1984 e apresenta uma longa série de esclarecimentos dos conceitos usados na própria definição[5] o que a torna algo difícil de empregar de forma expedita; a segunda, datada de 1998, é o resultado de um longo processo de propostas e contrapropostas, onde o comité de ética da dita Associação teve um papel relevante, e que se saldou por um compromisso que avança em relação à definição anterior mas que ainda exige alguns esclarecimentos anexos para uma correcta interpretação[6].

Estas definições, de uma forma ou de outra, tocam de maneira clara duas questões essenciais e que aqui nos interessam especialmente: um museu não pode ser considerado como tal sem o seu público; o objecto de museu será organizado numa colecção e esse conceito implica necessariamente a existência de memória associada ao objecto. Estas duas questões são centrais no que respeita ao entendimento actual sobre o "Museu". Sobre elas pretendemos reflectir, especificamente no que se refere às colecções e aos museus etnográficos, tidos genericamente como uma das formas de preservar a dita Cultura Popular, objecto desde Congresso. (...)


 

[1] Doutorando em  Museum Studies pela Universidade de Leicester (U.K.); docente da Universidade Fernando Pessoa, Porto.

[2] Apontamos, apenas a título de exemplo, as reflexões de ALEXANDER, Edward P - Museums in Motion, London, Altamira Press, 1996; DEAN, David - Museum Exhibition. Theory and Practice, Routledge, London, 1996; PEARCE, Susan - Museums, Objects and Collections: A Cultural Study, Leicester University Press, Leicester, 1992.

[3] Vejam-se as definições de museu que apresentamos abaixo.

[4]"A museum is a non-profit making, permanent institution in the service of society and of its development, and open to the public, which acquires, conserves researches, communicates and exhibits, for purposes of study, education and enjoyment, material evidence of man and his environment.".

[5] "A museum is as institution which collects, documents, preserves, exhibits and interprets material evidence and associated information for the public benefit.".

Definições: institution à formal body; long term purpose; collects à all means of acquisition; preserves à all aspects of conservation and security; documents à emphasises need to maintain records; exhibits à confirms expectation of visitors to see at least part of the collections, also implies opening at appropriate times; interprets à display, education, research, publication; material à something tangible; evidence à authenticity as «real thing»; associated information à all records surrounding an object; for the public benefit à deliberately open-ended to reflect current thinking that museums are the servants of society, also that the museum is a non-profit institution.

[6] "Museums enable people to explore collections for inspiration, learning and enjoyment. They are institutions that collect, safeguard and make accessible artefacts and specimens, which they hold in trust for society.".

Definições: A collection is an organised assemblage of selected material evidence of human activity or the natural environment, accompanied by associated information. As well as objects, scientific specimens or works of art held within a museum building, a collection may include buildings or sites; Safeguarding includes undertaking conservation, security and collections management; Making accessible includes undertaking interpretation, education, exhibition, outreach, documentation, research and publication, within or outside the museum's own buildings; The definition can also be used in the singular ("A Museum...").

 

 

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