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O Natal de antigamente - Montargil

Lino Mendes (Portugal)

Estamos em MONTARGIL e o ano de 1930 está quase a chegar ao fim. Continua a apanha da azeitona, e com a ajuda de vacas e de bois tenta-se acabar a sementeira. Embelga-se e semeia-se aproveitando bem o tempo - já que é neste mês que existe o dia mais pequeno (em que acontecem os dias mais pequenos).

Ou porque chove ou porque está frio, a azeitona está difícil de apanhar, tempo que aliás já se esperava, pois que andasse lá por onde andasse o mês de Natal (do frio) cá havia de chegar.

É Noite de Natal!

Antes da Missa do Galo, no Largo da Igreja começa a arder um enorme madeiro. Enquanto do campo (dos arredores da vila) vem muita gente, os homens trazendo archotes de gamão para alumiar o caminho.

As pessoas de mais idade vestem o fato domingueiro e de festa para ir à missa, em especial as mulheres que põem o xaile preto e o lenço na cabeça, com as de mais idade, já avós, usando capa preta que chega por vezes aos pés e ainda touca de veludo igualmente preto.

Depois da Missa do Galo, fazia-se a “Consoada”. A família juntava-se e comia-se então chouriço assado e pastéis, e bebia-se café ou chá. Entretanto, um prato que há muitos anos também marca o jantar da véspera de Natal, é o de “couves com «bacalhau.

A ementa tradicional na quadra natalícia integrava um prato hoje ainda muito apetecido - miolos de porco. Dizia-se até, que quem nessa quadra não comesse miolos de porco não festejava o Natal. Isto, ao almoço, porque ao jantar havia chibo e/ou galinha corada.

Ainda quanto aos miolos de porco, essa ementa só era possível se a matança do porco tivesse sido feita duas ou três semanas antes. Que quase não havia “casa” que não engordasse o seu porquito para durante o ano ter na salgadeira carne que durasse. Enquanto outro engordava no “rodeio”

Duas ementas
Miolos de porco:
Frita-se a carne (“miolos” e “lombinho). Desfaz-se o miolo de pão e junta-se o pingo da carne com sumo de laranja ou de limão. A seguir, junta-se tudo.

Pastéis:
Como farinha, banha e azeite quente faz-se a chamada “massa tenra”,que naturalmente tem que ser amassada.
A espécie faz-se cozendo o grão (normalmente um litro) o qual depois se mói (o que se fazia nas máquinas de pimentão). Pesa-se, junta-se-lhe igual peso de açúcar e vai ao lume (com 1 ou 2 dec. de água). Estende-se a massa e mete-se-lhe a espécie. Frita-se.

Entretanto, confirmaram-nos que no Natal sempre se fizeram os pastéis, as filhoses e o arroz doce. E quanto a comida, acrescentaram que depois cada um fazia aquilo que tinha. Se tinha uns coelhitos fazia um coelho, se tinha um borreguinho matava-o e se não tinha podia comprar um bocadinho, fazia aquilo que tinha na capoeira. Mas a ceia de Natal era sempre uma couve de azeite e vinagre.

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