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A Cortiça e a Machada de Montargil
 

 

Lino Mendes (Portugal)
 

Em apontamento anterior [A arte de tirar a cortiça], referimos que de vários pontos do país aqui procuravam, pela sua qualidade de fabrico, as “machadas” para tirar cortiça. No entanto, e a exemplo de outras artes e ofícios, hoje apenas aqui existe uma loja de ferreiro e trabalhando em especial na construção civil. A loja dos “Labécos” fechou, mas com o Manuel Carlos um dos “mestres” da mesma várias vezes temos falado, e aqui deixamos um extracto duma das conversas.

Na vossa oficina havia uma especialidade… refiro-me às machadas!
Isso é uma coisa que se pode pôr a nível nacional . Ainda hoje, de Alcácer do Sal, de Grândola, de Santiago de Cacém, se querem uma machadinha boa para tirar cortiça vêm a Montargil à procura do meu primo Luís (que também já deixou de trabalhar). E quem diz machadas, pode também dizer enxadas, roçadoras, foicinhas, principalmente ferramentas de corte, que só a enxada não é.

Mas havia um segredo…
Não havia segredo, havia sabedoria em saber avaliar os materiais com que se lidava. Por exemplo, tive a possibilidade de saber de coisas que o meu avô fazia e ele próprio não sabia porque resultava. As pessoas até criaram mitos, dizia-se por exemplo que o meu tio Joaquim que ainda era mais especialista do que o Zé, que o Zé fazia enxadas e o Joaquim fazia machadas. Não era nada, o que um fazia também fazia o outro. Até se dizia que eles fechavam a porta para ninguém ver. Não era isso, eu era capaz de tratar da machada à frente de uma pessoa qualquer e ela poderia ver o que quisesse que não aprendia nada.

Era então uma intuição?
Não, era saber avaliar o material com que se trabalhava. E a prova que eu tive depois foi apanhar um livro na Biblioteca Itinerante da F .Gulbenkian e que era dum engenheiro químico brasileiro, que me fez compreender tudo aquilo que a gente fazia sem saber explicar o por quê, vi a razão teórica daquilo. Mais tarde, com experiências que fiz, vi tudo confirmado. Resumindo, o segredo está na têmpera. Se o arrefecimento for muito rápido, fica mais granular e não é sedimentoso. Se a têmpera for muito lenta fica mais filamentoso, quanto mais filamentoso fica mais macio é, quanto mais granular fica mais rijo é.

Explica lá então melhor…
O que faz pôr o granulado mais baixo, é a oxidação que é feita pelo contacto do oxigénio do ar com a água . E se arranjarmos uma camada boa de sabão, este vem todo ao de cima - o sabão isola a água do ar, corta-lhe o contacto, deixa de arrefecer a água por baixo do sabão e o oxigénio do ar não faz mal nenhum ao aço, pelo contrário deixa enrijar o aço o mais possível, ele aguenta bem, e a gente tira-lhe a graduação.

Mas vocês não trabalhavam com termómetros…
Na verdade não havia termómetros para medir os graus, mas a gente sabia pela cor.
Quanto se tempera, no imediato fica completamente branco, vai passando pela chama, e do branco começa a ficar em palha, depois amarelado, depois azul, verde, castanho e encarnado e fica destemperado. Há toda uma graduação entre o temperado e o temperado máximo. Há, pois, que naturalmente escolher a graduação em relação ao material com que se trabalha.
E, se conhecer o material com que se trabalha, sabe-se por exemplo que um só pode temperar com óleo, e outro só se pode temperar com água.

Mas que óleo?
Havia vários, mas por exemplo um que era usado em Pavia, era feito com sebo do talho, raspas de chavelho, óleo de linhaça e um pouco de prociato amarelo de potássio.

 

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