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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Festas e Tempos

 
  Festas Populares (1)

João Vasconcelos (*)


Quando hoje ouvem falar em "festas populares", certos portugueses urbanizados terão em mente festividades como a romaria da Senhora da Agonia ou as festas de Santo António em Lisboa. A sua "cultura popular" é a das romarias, do artesanato e do romanceiro. A outra, a da telenovela, do futebol, da discoteca, do megaconcerto, do centro comercial e do hipermercado, é, consoante os casos, "cultura de massas" ou "cultura pop", ou então não merece sequer o rótulo de "cultura ".

Muita gente não se habituou ainda a ver "o povo" fora das aldeias. Mas é aí que ele está, é aí que estamos em força desde meados do século XX. Encontro, porém, uma desculpa parcial para essa cegueira. É que, se é certo que o camponês se urbanizou, também é certo que não abandonou os campos de vez. Visita a terra com os filhos no mês de Agosto, ou pelo menos no dia da festa do padroeiro ou da romaria local. Torna a visitá-Ia no Natal, ou na altura da matança, ou no dia do compasso. Vem ajudar e vigiar os parentes nas vindimas, na debulha e na partilha da herança. Vem casar a filha e baptizar o neto. Paga as obras necessárias para manter em pé ou melhorar a casa de família, ou então constrói casa nova para as férias, para a reforma ou para os filhos. Visita as campas dos familiares no dia de Todos os Santos. Quando pode, faz doações mais ou menos avultadas para o restauro do relógio electrónico da igreja, para a compra de um sintetizador, para o alcatroamento dum caminho, para a festa da aldeia - à semelhança do que fazia há cem anos o fidalgo residente ou absentista. A modernização tardia do país e este vaivém cultural dos filhos do campo estão em larga medida na raiz quer da vitalidade das festas locais e das romarias, quer do carácter "multicultural" dos programas dos festejos. É isso também que dá uma certa substância às visões urbanas da rusticidade

As festas populares contemporâneas (populares no sentido vago em que geralmente não são as festas que a maioria das pessoas das camadas sociais mais elevadas frequenta) não pertencem já à civilização camponesa, mas a um universo cultural que, para usar a expressão de Augusto Santos Silva, habita "tempos cruzados". Esse universo, podendo dizer-se híbrido de um certo ponto de vista, só pode ser considerado pouco genuíno ou incaracterístico por excesso de nostalgia. E a hibridação não é também a destruição da "tradição" pela "modernidade". Tomemos um exemplo: ao mesmo tempo que a música de discoteca foi penetrando nas romarias através dos altifalantes das tendas de comércio e das pistas de carros de choque, muitas discotecas de província foram ocupando os espaços de eleição dos velhos santuários - as margens dos centros urbanos, os pinhais despovoados, as zonas de passagem, as terras de ninguém.
 

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(Excertos de "Festas e tempos". Texto do catálogo "O tempo da festa", Porto, Centro Regional de Artes Tradicionais, 1997)
(*) Antropólogo. Investigador no Instituto de Ciências Sociais

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