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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  O Ciclo Natalício (1)

 Sérgio Fonseca

Dezembro de 2003

Em todas as religiões é fácil encontrar vestígios dos velhos cultos astrais, adaptados a outras intenções, certo, mas cujo disfarce a hierologia(*), não raro, explica  e desvenda. A adoração dos corpos celestes foi universal: originou crenças, formulou ideias e estabeleceu práticas tão fortemente enraizadas depois que, ao diante, penetraram nas várias doutrinas religiosas, ou aceites como necessárias, ou á força, como irresistíveis. Compreende-se o domínio  da astrologia nas mitologias de que quase todos os povos, pensando, que à anuviada imaginação primitiva, os fenómenos celestes cumpriam-se ou surgiam como manifestações de um poder

misterioso e oculto. Lento e lento a curiosidade apreensiva e tímida foi verificando a concordância de certos movimentos planetários com épocas várias do tempo sob cuja influência se praticavam as  sementeiras ou realizavam as colheitas. Os meses e as estações, relacionados com a marcha e aspectos dos dois astros mais observados, acusavam, com máxima acentuação, a força ignorada e dominadora. E com o tempo, na obscura mentalidade primitiva, os acontecimentos siderais -  receosa e ingénua que nos vem denunciando, através da história e das religiões, prognósticos, presságios e outros despojos legados pelos antigos cultos.

A solenidade do Natal, de facto não é referido nas notícias mais remotas que, nos seus primeiros escritos, nos legou o cristianismo; provou-se que não foram os apóstolos que a introduziram; as investigações relativas ao dia parecido ao da natividade do Salvador não resolveram uma data justas.  De sorte que os chefes da igreja do Ocidente, em face da grande funda solenidade anual celebrada em Roma e chamada a festa do nascimento do sol invencível , decidiram fazer coincidir  com o nascimento de Cristo.

Esta inteligente deliberação da igreja no século IV, modificou pouco a intenção primitiva da homenagem ao renascimento do astro, mas não expurgou inteiramente, dos costumes, certos usos e superstições que mais ou menos sobreviveram até hoje.

É de ver, por exemplo, os festins que quase toda a humanidade realiza por este tempo. Há iguarias especiais características: os mexidos ou formigos, as filhoses ou coscoréis, o vinho quente com mel, as rabanadas, certas broas e bolos.  Estas comidas, como averiguaram os mitologistas, são os vestígios  dos antigos sacrifícios em homenagem aos deuses; a princípio , mesmo os bolos tinham a forma dos animais abatidos no momento em que se desejava tornar propícias as divindades. O intuito cultural está perdido; mas vagamente, gradativamente, se alcançou explicar a celebração  da festa com jantares ou ceias fartas. A matança do porco em que muitas terras se efectua só em Dezembro, - como acontecia em Lorvão, agora já se não usa, mata-se em qualquer altura, - a cabeça de Javali, era obrigatória em dia de Natal, nas mesas alemãs, o lugar do mel, sagrado em numerosas mitologias, na confecção de certos doces, Vários outros elementos, enfim, são sobrevivências a considerar. E, de resto, costumes houve já extintos, dos quais entretanto, nos ficou a indicação histórica.     

 

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(*) Estudo ou conhecimento das diversas religiões


   

 

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