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  O traje dos ranchos folclóricos na era do pronto-a-vestir

Carlos Gomes(*)

Até finais do século XIX, era ainda usual entre nós, no meio rural, ser a maior parte do vestuário produzida artesalmente no ambiente doméstico. O agricultor produzia o linho ou comprava na feira o pano. E, não faltavam em muitas aldeias os teares e as pessoas mais hábeis para os manusear, processar o linho ao longo de todo o ciclo que vai até ao produto acabado e bordar. Em “As Farpas”, o escritor Ramalho Ortigão elogiou como ninguém a sensibilidade artística da bordadeira de Viana do Castelo.

Trajo de BarcelosA industrialização no nosso país faz-se sentir a partir de meados do século XIX que corresponde ao período chamado do “fontismo”, fazendo surgir alguns pólos industriais nalgumas regiões do país, correspondendo em certa medida às principais cidades que vieram a tornar-se capitais de distrito. Em Braga, por exemplo, estabeleceu-se então a indústria chapeleira, daí irradiando para toda a região sob a sua influência, através do comércio, o célebre chapéu braguês que, com uma certa imaginação e fantasia, muitos ranchos folclóricos do Alto Minho foram alterando-lhe as formas. Esquecidos, no baú da memória, ficaram os velhos barretes de confeção caseira, naturalmente mais tosco e, por essa razão, indevidamente excluído da apresentação pública, por muitos grupos apenas reservada aos trajes mais vistosos, geralmente domingueiros.

O desenvolvimento tecnológico industrial e a produção em série deu origem ao comércio de “pronto-a-vestir”, formatando hábitos e ideias e submetendo a criatividade do indivíduo ao “criador da moda” contratado pela indústria têxtil. Paralelamente, o receio do desaparecimento de antigos costumes e modos de viver levaram ao aparecimento dos grupos folclóricos que se destinaram a preservar de uma forma algo museológica tais tradições, preservando dessa forma a memória da identidade e fazendo reviver as velhas usanças. Mas, também estes não ficaram imunes às influências do seu tempo, refletindo em cada época as respetivas mentalidades e hábitos de vida.

Com o advento do turismo associado ao folclore, tão intensamente explorado e nem sempre da melhor maneira durante o período do Estado Novo, surgiu um novo segmento de mercado constituído pelo comércio de artesanato e “fatos regionais”, com implantação sobretudo nos principais centros turísticos e de influência do folclore como sucede com Viana do Castelo. Trata-se de uma atividade que vão vive exclusivamente do turista que pretende um “souvenir” mas dos próprios grupos folclóricos que aí fazem as suas compras. Com a chegada do verão e, com ele, as férias dos nossos emigrantes, aumentam as encomendas de “fatos regionais” para vestir de uma assentada todos os componentes de um grupo a formar algures, no seio de uma qualquer associação portuguesa. Trata-se de uma prática que, no entanto, não é exclusiva dos nossos compatriotas que vivem no estrangeiro, porquanto é extensível a muitos grupos folclóricos sediados nas próprias regiões de origem que dizem representar.

Convém lembrar que, as lojas de artigos regionais que comercializam “fatos” para ranchos folclóricos fazem-no sobretudo com interesse comercial e sem qualquer preocupação ou responsabilidade de natureza etnográfica, vendendo aquilo que “os ranchos da região usam” e não propriamente aquilo que deveriam usar… ao contrário do que sucede com as farmácias, estes estabelecimentos comerciais não dispõem de um “diretor-técnico” especializado na matéria!

Entretanto, o desenvolvimento das novas tecnologias tem vindo a criar novas possibilidades de mercado com a alteração dos hábitos de consumo também no domínio do vestuário. E, se até há relativamente pouco tempo era frequente vermos todas as pessoas vestidas de igual forma segundo os padrões impostos pela moda, eis que surgem as tendências individuais da moda dando emprego aos novos designers, termo que actualmente se emprega para designar aquelas que outrora eram tratadas por “modistas” ou costureiras. Estes criam um novo design para uso exclusivo do cliente numa ocasião especial e de acordo com as suas próprias caraterísticas e personalidade. Daí, também as “novas tendências da moda” surgem nos grupos folclóricos onde determinados componentes introduzem novas cores e estilos ao traje, conferindo-lhe foros de autenticidade que, com o decorrer do tempo, conquistarão espaço nos figurinos e manequins das lojas de “fatos regionais” com a garantia de que são os fatos que “os ranchos da região usam”. E, assim, perpetuam um erro que acabará com o tempo por adquirir “certificação” de autenticidade.

[Sugere-se uma visita à página sobre os Trajos Tradicionais / Regionais]

(*) Jornalista, Licenciado em História

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