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  Moinhos de Maré: um Património a preservar (1)

Carlos Gomes(*)

 

O moinho de maré de Corroios, no concelho do Seixal, foi mandado construir por D. Nuno Álvares Pereira em 1403, já lá vão mais de seis séculos de existência. Situado junto à baía, encontra-se adaptado a ecomuseu, atraindo regularmente numerosos visitantes que desse modo entram em contacto com aspectos ligados à etnografia e à tecnologia associada ao aproveitamento da energia das marés.

Ao contrário do que sucede com as azenhas que utilizam a força motriz das correntes fluviais, os moinhos de maré baseiam-se nos ciclos das marés. Estes moinhos dispõem de uma caldeira que se enche de água, a qual é fechada por uma adufa até à descida das águas. Estas passam então sob as arcadas do moinho onde se encontram os rodízios através dos quais vão mover as moendas. Existem moinhos de maré que chegam a ter uma dezena de moendas ou seja, pares de mós.

Calcula-se que remontem ao século XIII os primeiros moinhos de maré construídos em Portugal. No Montijo, outrora designado por Aldeia Galega, o moinho de maré ali existente conserva ainda a cruz dos cavaleiros da Ordem de S. Tiago a encimar a porta de entrada. A maioria dos que chegaram até aos nossos dias encontra-se em estado de abandono, sendo poucos os casos dos que foram recuperados para fins culturais. Porém, existiram outrora inúmeros desses moinhos em Almada, Barreiro, Seixal, Moita, Montijo, Alcochete e Alhos Vedros. Também em Alcácer do Sal, aquele município adaptou o moinho da Mourisca, no estuário do rio Sado, a espaço museológico.

Curiosamente, não abundam nesta região os moinhos de vento, devendo-se naturalmente o facto às características paisagísticas da região, dominada por numerosos esteiros e pouco relevo orográfico, o que a torna uma zona abrigada e, por conseguinte, pouco ventosa. No concelho do Seixal apenas se conhece um único exemplar situado na Azinheira, em frente ao Barreiro.

A actividade moageira ligada aos moinhos de maré no estuário do rio Tejo revelou-se de importância primordial na época dos Descobrimentos uma vez que era ali produzida a farinha com que era fabricado o biscoito que constituía a principal base alimentar dos navegadores. Basta salientar que, no complexo Real de Vale de Zebro, existiam outrora quase trinta fornos de cozer o biscoito, armazéns de trigo, cais de embarque e ainda um moinho de maré com oito moendas que pertencia à Casa Real.

Com efeito, era nos esteiros do rio Tejo e do rio Coina que se verificava a maior azáfama com a construção das naus. A sua localização, de fácil navegabilidade mas simultaneamente afastada dos olhares curiosos de estranhos, permitia manter algum segredo à volta das viagens que se projectavam e ainda das próprias técnicas e materiais empregues na construção naval. Não foi certamente em vão que Cristóvão da Gama, irmão de Vasco da Gama, possuiu no Seixal os estaleiros da Quinta da Fidalga, da mesma forma que no sítio da Azinheira se enterravam no lodo dos sapais as madeiras utilizadas na construção das naus.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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