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Judaísmo e Cristãos-Novos no concelho de Ourém

Carlos Gomes(*)

Ourém e o seu concelho é uma das localidades do país onde a influência judaica mais teima em resistir nomeadamente nos hábitos das suas gentes. Da antiga Sinagoga não restam mais do que as ruínas que sobreviveram ao terramoto de 1755 e às mãos criminosas das tropas de Massena que incendiaram a vila medieval de Ourém. Mas, imortalizou o escritor Camilo Castelo Branco, na sua novela “Olho de Vidro”, a vida da comunidade judia de Ourém, retratando a vida do famoso médico oureense Braz Luiz de Abreu.

De acordo com documentos à guarda da Direção-Geral de Arquivos, foram entre 1561 e 1787 julgados pelo Tribunal do Santo Ofício quarenta e seis pessoas residentes em Ourém, de entre as quais contam-se 23 cristãos-novos, quase todos acusados da prática de judaísmo.

Apesar das perseguições de que foram alvo, conservam ainda muitos oureenses nomes de família que denunciam claramente as suas origens judaicas e a respetiva conversão forçada ao cristianismo, tornando-se cristãos-novos, na sequência do édito que o rei D. Manuel I publicou em 1496. Albuquerque, Castelão, Esteves, Fernandes, Ferraz, Freire, Furtado, Gonçalves, Mendes, Pereira, Oliveira, Saraiva e Silva são apenas alguns dos inúmeros apelidos adotados pelos cristãos-novos bastante usuais na nossa região. De resto, segundo reza a tradição, os cristãos-novos adotaram como apelidos, na maior parte dos casos, nomes associados a árvores, flores e outros vegetais.

Também a nossa cozinha tradicional onde pontificam os enchidos como as chouriças, farinheiras e a morcela de arroz, forma expedita empregue pelos judeus de fingir o consumo de carne de suíno, constitui um traço de identidade de uma comunidade que foi culturalmente assimilada ao longo de vários séculos e encontra-se plenamente integrada.

Porém, uma das marcas mais visíveis da influência judaica encontra-se patente nas constantes inscrições que surgem nas paredes de casas e barracões agrícolas constituídas por cruzes e pentagramas frequentemente acompanhados por ferraduras. Tidos geralmente como simples amuletos, trata-se de representações que nos remetem para cultos ancestrais que vieram a ser adotados pelas diferentes religiões, como sucede com a cruz inicialmente associada a ritos pagãos em torno de divindades solares.

Geralmente mais utilizada em regiões onde a presença islâmica foi mais acentuada como sucede no Alentejo, a ferradura encontrava-se mais associada aos cultos em torno da lua. No entanto, alguns investigadores sugerem que o símbolo que a ferradura representa é originário da Fenícia, tendo sido adotado pelos árabes e por estes transmitido aos judeus, encontrando-se relacionado com o chamsa que representa os cinco dedos de uma mão estendida, também identificado com a “mão de Miriam” ou “olho de Fátima”.

Não obstante, o pentagrama é talvez o mais curioso de todos os símbolos que aparecem no concelho de Ourém na medida que é menos usual ver-se noutras regiões do país. Trata-se de um símbolo de origem pagã que representa os cinco elementos da Natureza – Ar, Fogo, Terra, Água e Espírito – associado a uma cosmogonia do universo. Porém, o pentagrama é aqui invariavelmente identificado como sendo o Signo de Salomão, o que pode indicar uma forma disfarçada de identificar os membros de uma comunidade sem correr o risco que a sua representação correta naturalmente acarretaria, pois trata-se da Estrela de David, claramente identificada com o Judaísmo e presentemente com o Estado de Israel.

O que parece não restar dúvidas são as referências históricas e as marcas culturais que atestam a identidade de uma comunidade de cristãos-novos que se confunde com o próprio concelho de Ourém.
 

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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