|
Chegou o
Janeiro e com ele as janeiras. Pelos caminhos das aldeias
seguem os reiseiros com as suas violas e bandolins, harmónios e
cavaquinhos, indo de porta em porta cantar os reis e pedir alvíssaras.
No
Minho cantam os Reis Velhos e os Reis Galegos. As portas abrem-se
para os receber e o anfitrião é presenteado com descantes como o menino
o foi pelos reis magos com oiro, incenso e mirra no dia do seu
nascimento. Após escutar com atenção os versos que lhe foram dedicados,
o dono da casa convida-os a entrar e recebe-os com algumas iguarias que
retira do fumeiro. Se quem recebe é generoso pode festa durar até às
tantas. Contudo, se a espórtula é fraca e o acolhimento pouco amistoso,
os reiseiros lançam-lhe à despedida algumas quadras satíricas em lugar
dos habituais agradecimentos. |
|
Nalgumas localidades como sucedia nas terras da Maia, o povo erguia no
adro da igreja um palanque onde era representado um auto que, regra
geral, se dividia em três actos ao longo dos quais se narrava a história
do nascimento do messias, desde a perseguição movida por Herodes até à
adoração do menino pelos pastores e pelos reis magos. As gentes maiatas
por exemplo, iniciavam os ensaios das reisadas ou embrechados como
também eram designadas, logo após as colheitas e a representação das
diferentes personagens era quase sempre feita pelos mesmos que haviam
representado no ano anterior ou então era o seu desempenho passado para
outra pessoa da mesma família, sucedendo não raras as vezes que os
membros de uma determinada família passavam a ser conhecidos pelo nome
das personagens que invariavelmente representavam.
Como é evidente, o
costume de cantar os reis ou as janeiras prende-se
com a tradição cristã do nascimento do menino Jesus e das oferendas
feitas pelos reis magos quando estes se dirigiram à gruta de Belém. Não
obstante e à semelhança do que sucede com as demais festividades de
índole cristã, também esta possui raízes bem mais profundas que remontam
ao paganismo primitivo e que se relacionam com as
festividades solsticiais que ocorriam precisamente na mesma altura a que foi
atribuído o nascimento de Jesus, embora sem provas que fundamentem tal
acontecimento. É, com efeito, o começo do ano solar ou seja, os
primeiros dias que se seguem ao "nascimento do sol" e os raios solares
crescem de novo, passando o seu tempo de duração a aumentar de dia para
dia, reiniciando-se o percurso que leva invariavelmente ao renascimento
da natureza e dos vegetais com o entrudus da Primavera. A nossa
civilização cristã mais não faz do que assimilar tais costumes
antiquíssimos conferindo-lhes uma nova interpretação mais consentânea
com os seus ensinamentos bíblicos.
Entre os romanos, Jano era celebrado como o deus dos portões e dos
começos, do céu luminoso e das origens e, por conseguinte, o princípio
de toda a existência, razão pela qual o seu nome era inicialmente
invocado mesmo antes do próprio nome de Júpiter. Em virtude disso, foi o
seu nome atribuído ao mês que passou a designar-se por
Janeiro e que se
segue ao solstício do inverno após ter passado a primeiro mês do
calendário romano com a reforma introduzida por Numa Pompílio. Ora, a
designação de janeiras ou janeiradas pela qual passaram a ficar
conhecidas as reisadas apenas se deve ao facto das mesmas ocorrerem no
primeiro dia do ano, não obstante o costume as prolongar até ao dia de
reis ou "Adoração dos Reis Magos" que em Portugal se celebra no dia 7 de
Janeiro.
Mas, sob uma forma mais ou menos cristianizada, o costume permanece e
chega até nós graças à tradição, atravessando gerações e sofrendo as
influências de cada época. E, o que se afigura mais notável, numa altura
em que a toda a actividade humana é retirada a sacralidade que
caracterizava as sociedades antigas, a espiritualidade cede o lugar aos
bens materiais e outras ilusões terrenas, eis que o Homem faz renascer
de novo as suas velhas tradições e estas regressam cada vez com maior
brilho e fulgor. É que, sob pena de um retorno à condição animal, o ser
humano jamais pode abdicar da sua essência da qual faz parte integrante
a sua própria dimensão espiritual.
Uma fez terminadas as reisadas, é tempo de semear o centeio e o tomate,
a cenoura e o feijão, preparar as terras para as culturas do inverno e
covais para novas plantações, proceder à transfega dos vinhos e adubar
as terras.
Em breve chegará o entrudus e com ele o folguedo que se destina a
preparar a
serração da velha e a entrada da Primavera. Até lá,
cantemos
os reis e revivamos as nossas tradições para que estas continuem a ser o
que sempre foram! |