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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


A Indústria Chapeleira e o Traje Tradicional

 

Carlos Gomes(*)

Clique na imagem para ver em tamanho grandeA fotografia constitui uma das fontes documentais não apenas para quem estuda os acontecimentos da História contemporânea como também para quem procura com algum rigor conhecer os usos e costumes desde meados do século XIX, nomeadamente aspectos relacionados com o traje utilizado à época. Porém, o aparecimento da fotografia coincide com a industrialização dos processos de produção que levaram a uma inevitável alteração de hábitos e a uma padronização cada vez maior no modo de vestir.

Primitivamente, a produção de vestuário era feita de forma artesanal e, sobretudo nos meios rurais, nem sempre existiam recursos materiais para se poderem adquirir nas feiras que se realizavam nas vilas os tecidos necessários à sua confecção, ao contrário do que sucedia com as classes nobres e abastadas para quem se importavam as mais luxuosas sedas. No campo, cultivava-se o linho que depois se submetia a um laborioso ciclo até ficar pronto para o tear. E era então que o vestuário, de linho, sorrobeco ou outros tecidos adquiria forma: com cores sóbrias ou garridas, com mais ou menos estopa, consoante a sua finalidade, de acordo com a condição da pessoa que o vestia e ainda com as características do clima ou da função, se destinava ao trabalho ou a ser usado em dia festivo. E, tal como acontecia em relação ao vestuário, o mesmo se verificava com outros acessórios, incluindo os que serviam para cobrir a cabeça.

Ainda actualmente é possível encontrar teares sem qualquer utilização desde há imenso tempo, em muitas casas antigas nas aldeias minhotas. E ainda, para quem efectua pesquisas genealógicas, não é raro verificar a profissão de tecedeira nos assentos de baptismo outrora lavrados nos cartórios paroquiais do Minho.

Enquanto o lenço servia às mulheres, o trabalhador do campo usava invariavelmente um barrete que se ajustava à cabeça, proporcionava conforto e não dificultava os movimentos, possuindo por vezes outras utilidades como a de esconderijo. Ou então, quando a temperatura o aconselhava, um chapéu de palha que, à semelhança do vestuário, também era construído pelas mãos habilidosas das mulheres. Aliás, é esse talento de artista que levou Ramalho Ortigão, em As Farpas, a caracterizar a mulher e o homem minhotos da seguinte forma:

“O trabalho das rendas basta, por ele só, para criar os hábitos de simetrização, de alinho, de asseio e de esmero, que necessariamente se comunicam da nitidez da operária a tudo que a rodeia – os seus vestidos, a sua casa.

O marido minhoto, por mais boçal e mais grosseiro que seja, tem pela mulher assim produtiva um respeito de subalterno para superior, e não a explora tão rudemente aqui como em outras regiões onde a fêmea do campónio se embrutece de espírito e proporcionalmente de desforma de corpo acompanhando o homem na lavra, na sacha e na escava, acarretando o estrume, rachando a lenha, matando o porco, pegando à soga dos bois ou à rabiça do arado, e fazendo zoar o mangual nas eiras, sob o sol a pino, à malha ciclópica da espiga zaburra”.

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(*) Jornalista, Licenciado em História

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