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A fotografia constitui uma das fontes documentais não apenas para quem
estuda os acontecimentos da História contemporânea como também para quem
procura com algum rigor conhecer os usos e costumes desde meados do
século XIX, nomeadamente aspectos relacionados com o traje utilizado à
época. Porém, o aparecimento da fotografia coincide com a
industrialização dos processos de produção que levaram a uma inevitável
alteração de hábitos e a uma padronização cada vez maior no modo de
vestir.
Primitivamente, a produção de vestuário era feita de forma artesanal e,
sobretudo nos meios rurais, nem sempre existiam recursos materiais para
se poderem adquirir nas feiras que se realizavam nas vilas os tecidos
necessários à sua confecção, ao contrário do que sucedia com as classes
nobres e abastadas para quem se importavam as mais luxuosas sedas. No
campo, cultivava-se o linho que depois se submetia a um laborioso ciclo
até ficar pronto para o tear. E era então que o vestuário, de linho, sorrobeco ou outros tecidos adquiria forma: com cores sóbrias ou
garridas, com mais ou menos estopa, consoante a sua finalidade, de
acordo com a condição da pessoa que o vestia e ainda com as
características do clima ou da função, se destinava ao trabalho ou a ser
usado em dia festivo. E, tal como acontecia em relação ao vestuário, o
mesmo se verificava com outros acessórios, incluindo os que serviam para
cobrir a cabeça.
Ainda actualmente é possível encontrar teares sem qualquer utilização
desde há imenso tempo, em muitas casas antigas nas aldeias minhotas. E
ainda, para quem efectua pesquisas genealógicas, não é raro verificar a
profissão de tecedeira nos assentos de baptismo outrora lavrados nos
cartórios paroquiais do Minho.
Enquanto o lenço servia às mulheres, o trabalhador do campo usava
invariavelmente um barrete que se ajustava à cabeça, proporcionava
conforto e não dificultava os movimentos, possuindo por vezes outras
utilidades como a de esconderijo. Ou então, quando a temperatura o
aconselhava, um chapéu de palha que, à semelhança do vestuário, também
era construído pelas mãos habilidosas das mulheres. Aliás, é esse
talento de artista que levou Ramalho Ortigão, em As Farpas, a
caracterizar a mulher e o homem minhotos da seguinte forma:
“O trabalho das rendas basta, por ele só, para criar os hábitos de
simetrização, de alinho, de asseio e de esmero, que necessariamente se
comunicam da nitidez da operária a tudo que a rodeia – os seus vestidos,
a sua casa.
O marido minhoto, por mais boçal e mais grosseiro que seja, tem pela
mulher assim produtiva um respeito de subalterno para superior, e não a
explora tão rudemente aqui como em outras regiões onde a fêmea do
campónio se embrutece de espírito e proporcionalmente de desforma de
corpo acompanhando o homem na lavra, na sacha e na escava, acarretando o
estrume, rachando a lenha, matando o porco, pegando à soga dos bois ou à
rabiça do arado, e fazendo zoar o mangual nas eiras, sob o sol a pino, à
malha ciclópica da espiga zaburra”.
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