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O advento da
indústria na segunda metade do século dezanove arrancou à terra milhões
de camponeses para engrossar as fileiras de um enorme exército de
operários que asseguraram o funcionamento de grandes fábricas onde todos
os bens passaram a produzir-se numa economia de escala.
Também aqueles que
permaneceram na lavoura viram os seus hábitos de vida alterados. A
partir de então, não necessitaram mais de cultivar o linho para produzir
o seu próprio vestuário. Chegou a era do pronto-a-vestir e, toda
a gente escolhe a sua roupa como o mancebo a sua farda. Produzida a
partir de um figurino criado pelos desenhadores ao serviço da própria
indústria, o indivíduo perdeu a sua individualidade para se misturar com
a massa anónima, através dos hábitos, dos gostos, das ideias e até da
forma de se exprimir.
Aos alimentos
característicos da cultura de cada povo sobrepôs-se o fast-food e
os refrigerantes à base de coca. Ao vestuário tradicional impôs-se os
jeans. À diversidade das ideias estabeleceu-se a ditadura do
pensamento único. À riqueza linguística dos povos obrigou-se o uso
exclusivo da língua dominante. À liberdade das nações instituiu-se a
supremacia do imperialismo e da sua ideologia. E, assim, o valor do PIB
passou a constituir a razão principal da nossa existência miserável e a
sobrevivência das nações a depender do balancete comercial como se de
uma mera empresa se tratassem.
Por conseguinte, a
representação do folclore – não confundir com o folclore propriamente
dito! – apenas faz sentido se nos reportarmos a uma era pré-industrial
uma vez que foi precisamente a industrialização que levou à padronização
dos modos de vida, determinando o desaparecimento de costumes ancestrais
que agora procuramos reproduzir, quanto mais não seja como forma de
preservação da memória colectiva. Foi, aliás, tal preocupação que levou
ao aparecimento das mais diversas entidades que se propuseram estudar o
folclore, incluindo instituições científicas e grupos de folclore.
Se constitui nosso
propósito identificar o que de mais genuíno existe no saber do povo,
então teremos de recuar a uma época em que os seus costumes eram
determinados por uma forma de viver que decorria ainda em moldes
artesanais.
Em regra, a maior
parte das representações do folclore que procuram reproduzir o mais
fielmente possível tais costumes fixam a sua intervenção num período
temporal situado nos finais do século dezanove, precisamente numa altura
em que, para além da abundância da ilustração, surgiu a fotografia, o
fonógrafo e a preservação de inúmeras peças de interesse museológico que
nos permitem identificar com maior precisão os seus costumes.
Naturalmente, por razões óbvias, a representação de épocas mais recuadas
seria particularmente difícil, ainda que desejável.
Pretender
reconstituir o passado a partir daquilo que foi apresentado em meados do
século XX é o mesmo que copiar algo a partir de uma cópia já de si
adulterada em lugar de se fazer a partir do original. E, quanto mais
celebrizada se encontra tal cópia maior constitui a adulteração a que
foi sujeita ao tempo em que serviu para dar uma versão estereotipada da
fonte original ou seja, dos próprios usos e costumes do povo que
constituem a essência do folclore!
A fim de evitar a
reprodução dos erros de que a representação do folclore enferma, muitos
dos quais já com foro de tradição, importa estudar e analisar os
documentos coevos e os testemunhos directos das pessoas que viveram
aquela época, seguindo uma linha de compreensão do enquadramento
histórico e sociológico. A prática do copianço deve ser
definitivamente colocada de parte. |