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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Folclore: divagações sobre a sua evolução semântica
 

 

Carlos Gomes(*)

Pretendendo-se preservar as tradições populares nas suas mais diversas manifestações culturais e artísticas, mormente a música, a dança, o traje, as lendas e provérbios, normal seria que para designar o seu estudo, inventariação e divulgação se recorresse a termos originários da própria língua nacional e não, como é o caso, a uma importação ou empréstimo linguístico.

Com efeito, a adopção do termo folclore constitui um substantivo masculino, de origem inglesa, resultante da acoplagem dos vocábulos folk e lore. Não obstante, embora frequentemente se confunda com etnografia e até com etnologia, a palavra folclore tem a sua correspondente mais directa na Língua portuguesa no termo demopsicologia que respeita ao estudo psicológico de um povo.

Inicialmente apresentado com a grafia folklore, o termo veio a perder a consoante k e acabou definitivamente adoptado, vindo a dar origem a novos vocábulos, como sucede com o substantivo masculino folclorismo, resultante da adição do sufixo ismo ao termo original, pretendendo-se como este substantivo masculino identificar um movimento ou sistema de ideias que preconiza a defesa das tradições populares. E, por inerência, o substantivo folclorista – por adição do sufixo ista – relativo àquele que procura preservar o folclore, por assim dizer um partidário do folclorismo. Não se inscrevem, naturalmente, no contexto linguístico, eventuais vocábulos inventados através da acoplagem com siglas comerciais, remetendo-se tais casos mais para o domínio do marketing.

Por conseguinte, constata-se que a Língua portuguesa possui uma extraordinária capacidade de se enriquecer com novos vocábulos correspondentes a novos signos linguísticos, resultado da evolução cultural e mental de um povo perante novas realidades e ainda no contacto com diferentes culturas.

Inversamente aos anteriores, o adjectivo folclórico não é em regra bem aceite por todos quantos se dedicam à causa do folclore ou seja, os próprios folcloristas. Sucede que, designando originalmente algo relativo ao folclore, o vocábulo registou uma evolução semântica que o levou a adquirir novos significados. Tal como sucedeu com o termo parvo, do latim parvulu que queria dizer pequeno ou insignificante, também o vocábulo folclórico adquiriu novos sentidos tais como berrante, espaventoso, porventura de mau gosto. E, tal como aquele, ao adquirir nova significação, o termo folclórico é frequentemente empregue de forma depreciativa nas mais diversas situações que não respeitam ao folclore propriamente dito.

Na realidade, nós que ao folclore dedicamos grande parte das nossas vidas no pressuposto de que se deve preservar um rico património cultural que pertence ao povo do qual fazemos parte, não é sem mágoa que ouvimos com regularidade os próprios políticos empregarem os termos folclore e folclórico de forma tão pejorativa e injuriosa que invariavelmente nos soa a insulto e causa frequente indignação. Tanto mais que, enquanto cidadãos, deles esperávamos uma atitude mais culta e respeitadora para com as coisas do povo, a sua própria cultura e identidade.

Mas, temos de compreender e aceitar com naturalidade a evolução semântica pois ela faz parte da evolução da própria Língua portuguesa. E, tal como do folclore se derivou o termo folclórico que passou a adquirir nova significação, muitas outras palavras registaram idêntica evolução semântica como sucede com as que se originaram a partir da palavra política, nomeadamente os termos politicagem, politicalha, politicante, politicão, politicar, politicastro, politicóide, politicomania, politiqueiro, politiquice e politiquismo. Pelo menos, no que respeita à evolução semântica, os que fazem da política o seu ofício e do folclore termo depreciativo para servir de insulto, estão muito bem servidos. E recomendam-se!

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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