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  Em Fátima: Casa-Museu de Aljustrel é um espaço etnográfico

Carlos Gomes(*)

Milhares de peregrinos de todo o mundo afluem todos os anos ao Santuário da Cova da Iria, em Fátima. Não raras as vezes, as estradas assemelham-se a carreiros de formigas laboriosas que rumam àquele local de culto e meditação. A escassa distância situa-se a pequena aldeia de Aljustrel que foi terra natal dos videntes. As suas casas encontram-se preservadas e, para além da sua envolvente mística, constituem um valioso testemunho do modo de vida no início do século XX.

A preocupação com a preservação dos espaços relacionados com a vida dos viventes e das memórias deixadas pela Irmã Lúcia levaram a que em Aljustrel se conserve um pequeno núcleo rural de valor museológico, formado por habitações construídas de forma tradicional.

Numa das habitações, cujas origens remontam muito provavelmente ao século XVII, instalou o Santuário de Fátima a Casa-Museu de Aljustrel. Trata-se de um espaço museológico que associa a vida dos videntes a um contexto histórico e etnográfico que nos dá a conhecer os usos e costumes das gentes de Fátima ao tempo em que tiveram lugar as aparições. No seu interior, encontra-se patente ao público uma exposição de trajes tradicionais, as alfaias, as ferramentas do pedreiro e do cabouqueiro, o tear e o carro de bois. Mas, para além das peças que exibe, preserva as divisões da habitação, desde a alpendrada à cozinha, dos quartos de dormir à adega, do curral à casa-de-fora.

O folheto inclui um extracto do livro “Aljustrel, Uma Aldeia de Fátima”, o qual descreve o traje da região: “No dia-a-dia, as mulheres vestiam uma saia de estamenha muito rodada, apertada na cintura, geralmente de cor preta ou azul e, entre esta e a saia branca, usavam uma algibeira para guardar o dinheiro. As blusas eram de riscadilho de algodão ou de chita estampada, com folhos que caíam em cima do cós da saia, abotoadas sobre o peito com botões de osso.

O vestuário masculino, tal como o da mulher, diferia conforme a ocasião. A roupa interior do homem era constituída por camisa branca, feita de algodão, usada bastante afastada do pescoço; ceroulas de flanela ou de algodão grosso com cós na cintura, preso com dois botões e fitilhos para ajustar a parte inferior; calçavam meias ou peúgas feitas com cinco agulhas”.

O concelho de Ourém, no qual a freguesia de Fátima se insere, caracteriza-se a sul pelas formações calcárias enquanto a norte predominam os arenitos, diferenças estas que se reflectem nos materiais empregues na habitação tradicional. Por outro lado, se existem povoações como a freguesia de Olival onde os solos são mais férteis devido à existência de cursos de água com maior caudal, outras existem onde ela escasseia e os agricultores necessitam de recorrer à água dos poços para manter as suas culturas. Entre umas e outras, distingue-se a abundância de pastos e uma maior incidência da cultura do milho, o que facilita a criação de gado bovino e a sua utilização como força de tracção enquanto noutras povoações esta é feita com o auxílio do burro, como sucede na Freixianda.

A preservação dos espaços por motivos religiosos e os numerosos documentos da época, incluindo fotografias e peças de vestuário, tornaram-se um importante registo que nos permitem reconstituir, com maior fidelidade, os usos e costumes do povo sem estes terem sido sujeitos às modificações que foram feitas noutras regiões do país. Por conseguinte, a Casa-Museu de Aljustrel, em Fátima, merece a visita de todos quantos se interessam pelos assuntos relacionados com a Etnografia e o Folclore, independentemente das suas convicções religiosas.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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