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  A Etnografia estuda o Povo e não o indivíduo isolado
A propósito do fato do morgado de Covas

Carlos Gomes(*)

É o povo enquanto grupo social, visto numa perspectiva de conjunto, analisando a sua identidade étnica, as suas origens, os seus usos e costumes que constitui o objecto de estudo da Etnologia e, consequentemente, da sua própria descrição ou seja, a Etnografia. Por conseguinte, a sua investigação e análise não incide no indivíduo tomado isoladamente, independentemente da sua função social, podendo no entanto considerá-lo como uma figura-tipo representativa de um extracto social, inserido num contexto bem determinado na medida que o mesmo possa reflectir e sintetizar os hábitos de uma comunidade.

Vem isto a propósito da apresentação que é feita por alguns grupos folclóricos de indumentárias que se identificam com alguém que viveu numa época mais recuada no tempo, sem contudo explicar em que medida tais peças de vestuário poderão ser consideradas um traje característico de um determinado grupo social e em que contexto era o mesmo utilizado. Por exemplo, um determinado grupo folclórico tem por regra apresentar um fato masculino segundo o qual, constitui um modelo do que era habitualmente usado pelo morgado de Covas.

A freguesia de Covas pertence ao concelho de Vila Nova de Cerveira e, o referido morgado, foi em vida um afamado cavaleiro tauromáquico que se celebrizou em numerosas faenas que, nos começos do século XX, decorreram em muitas praças de touros, algumas das quais já desaparecidas como a de Algés e a do Campo de Santana. Tendo também, em função das lides em que participou, envergado com frequência o traje característico do cavaleiro de tauromaquia, vulgo traje de luces, bem poderia o referido grupo folclórico incluí-lo na panóplia de trajes que exibe. E, em coerência com tal raciocínio, juntar-lhe um “grupo de forcados”…

Sucede que à Etnografia apenas interessa a forma como o povo se vestia, quer fosse para trabalhar na lavoura ou em dia de romaria. Importa saber como trajava a lavradeira e o pescador, o moleiro e o marnoto, o resineiro e o pescador – não é o fato do senhor fulano de tal, que porventura até foi mandado fazer a um conceituado costureiro parisiense, aquilo que constitui matéria de estudo da Etnografia e do Folclore. Não são os veludos e os cristais exibidos pela família real ou os luxos da aristocracia que contribuem para a descrição etnográfica.

O vestuário que foi um dia utilizado por alguém não é necessariamente considerado traje característico do povo num determinado contexto social e temporal. Da mesma forma que a criação genial de muitos compositores de música erudita, ainda que inspirada em trechos do nosso folclore, jamais pode ser considerada música tradicional ou, como é mais vulgar dizer-se, folclórica.

Em conclusão, a não ser que o senhor morgado de Covas trajasse como o povo humilde da sua terra e com ele tivesse partilhado os árduos trabalhos da lavoura, o seu modo de vestir não é representativo das gentes daquela aldeia do Alto Minho e, por conseguinte, a apresentação do seu fato no contexto de uma exibição de folclore não faz o menor sentido. Importa, quanto muito, para o estudo da evolução do vestuário em Portugal, mas jamais numa perspectiva etnográfica.

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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