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Courenses são Papeiros
- Minhotos são "Picamilho"
- A propósito das rivalidades étnicas

Carlos Gomes(*)

Dedicado a Paredes de Coura
e aos courenses que vivem na região de Lisboa


Existem alcunhas que, não constituindo gentílicos, identificam as gentes oriundas de uma determinada região ou localidade. Elas resultam de uma rivalidade étnica que sempre existiu, as quais por vezes descem aos estreitos limites do lugarejo quando não mesmo do agregado familiar. De resto, a alcunha constitui no meio rural um elemento identificador de um determinado grupo familiar, transmitido de geração em geração.

Porque tinham o hábito de comerem pão de milho, eram os minhotos apelidados de “picamilho” enquanto os tomarenses ficaram conhecidos por “patos-bravos”. Os aveirenses são cagaréus, os do Porto tripeiros e os alentejanos chaparros.

Quando alguém pergunta a um natural de Arcos de Valdevez qual é a sua terra, ele invariavelmente responde:

- Sou dos Arcos, oh!

Aproveitando este jeito peculiar dos arcuenses se exprimirem, os de Ponte da Barca zombam dos seus vizinhos dizendo que são dos “Arcos ó”!

De forma um pouco maldosa, existe também quem identifique os bragançanos – de Bragança – como “bragansuínos” e os de Paredes de Coura como “coirões”…

E, a propósito de Paredes de Coura, o Dr. José Leite de Vasconcelos deixou considerável informação na sua obra “Etnografia Portuguesa”. E, como exemplo da rivalidade étnica que podemos encontrar um pouco por todo o país, citamos precisamente as que aludem aos naturais de Paredes de Coura cujo gentílico se designa por courenses por, numa versão mais arcaica, a região ser denominada de Coyra. Disse o conceituado arqueólogo e etnólogo no volume X da referida obra:

“Às gentes de Coura chamam papas de Coura, porque faziam lá umas papas de farinha de milho e leite que se vendiam nas feiras em cestos (balaios) e se cortavam à navalha, como o manjar branco do Porto. E também a mesma gente se designa de papeiros.

Em S. Paio de Jolda, concelho de Arcos de Valdevez, ouve-se:

O meu amor é de Coira,
É um grande cidadão;
É da raça dos mosquitos,
É de fraca geração.

E também:

- Tu és de Coira.

- Abaixo de Coira, bandalho!

E ainda: Nunca de Braga veio Bom tempo / Nem de Coura bom casamento.”

Paredes de Coura é terra de gente laboriosa e alegre do interior do Alto Minho. Estas rivalidades étnicas devem ser encaradas de uma forma positiva e apenas como elemento de estudo etnográfico. Trata-se de velharias que constituem um testemunho do relacionamento e da proximidade dos povos, com a mesma rivalidade que é frequente observar-se entre os próprios irmãos. E, caso exista quem como tal não entenda, façamos como os bracarenses:

- Mandemo-los para baixo de Braga!

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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