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  Concertina: um instrumento a preservar

Carlos Gomes (*)

Sempre que emigra, o minhoto leva consigo a concertina que o ajuda a manter viva a sua alma alegre e jovial. Mesmo nos momentos mais penosos como as que ocorreram desde a segunda metade do século dezanove, que os levava a aventurarem-se clandestinamente nos porões dos navios que os levaram ao Brasil para aí começarem uma vida nova, por vezes na miragem de um rápido enriquecimento, era ainda a concertina que afagava as tristezas de uma existência difícil e lhes redobrava as energias com seus acordes vivos que logo os predispunham para dançar o vira e a chula, a gota e o picadinho.

E essa alegria contagiante do minhoto depressa envolvia outros portugueses que partilhavam a mesma sorte de emigrante e assim, à volta de uma concertina, todos se sentiam como fazendo parte da mesma família que é, afinal de contas, o verdadeiro significado do conceito de nação.

A concertina é um instrumento popular que teve a sua origem na Europa por volta de 1830 e faz parte dos membrafones ou seja, dos instrumentos musicais que produzem o seu som graças à actuação de uma membrana. Estou convencido de que não existe método nem escola para se proceder à sua aprendizagem, facto que tem sido responsável pela sua gradual substituição pelo acordeão nos últimos tempos, sobretudo entre os grupos folclóricos portugueses. Não obstante e apesar da sua leve aparência, o acordeão produz uma sonoridade completamente distinta da concertina, pois tratam-se na realidade de dois instrumentos distintos. No entanto, existem acordeões que possuem como alternância o som da concertina, bastando para o efeito accionar um botão específico. Com efeito, em virtude da evidente falta de tocadores de concertina, muitos grupos folclóricos optam pela substituição deste instrumento pelo acordeão, o que se na realidade não satisfaz constitui por vezes a única forma de viabilizar a existência desses agrupamentos.

A ameaça de desaparecimento da concertina coloca um problema sério principalmente ao folclore, sobretudo da região de Entre-o-Douro-e-Minho. É que, sem o toque da concertina desaparece toda a sonoridade que caracteriza a música desta região e tudo se altera, como se o minhoto perdesse a sua pronúncia característica ou a música tradicional passasse a ser interpretada por meio de modernos instrumentos electrónicos. É que, por melhor executada que fosse, o vira jamais seria o mesmo!

A preservação do uso e conhecimento da concertina coloca um problema sério aos grupos folclóricos e, em geral a todos aqueles que desejam manter vivas as nossas tradições populares. Importa saber como poderá manter-se a continuidade da sua utilização sabendo-se que o seu ensino não é ministrado. Naturalmente, a sua aprendizagem pela sensibilidade auditiva passa pela prática do uso nos grupos folclóricos, embora sabendo-se que a formação de um excelente tocador é demorada e coloca algumas dificuldades na própria actuação dos grupos. Mas, entre uma solução atamancada que vai adulterar a sonoridade original da música e a possibilidade de dar continuidade ao emprego da concertina, importa escolher a melhor opção. E essa terá de ser necessariamente a que melhor aproveita ao folclore português.


 

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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