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  A arquitectura e a engenharia na criação da casa tradicional

Carlos Gomes(*)

A concepção de casa tradicional do ponto de vista arquitectónico assenta na reunião das linhas estéticas do edifício que variam consoante a região e os hábitos culturais onde se insere. De igual modo, a engenharia que é empregue na concretização do projecto arquitectónico corresponde às exigências naturais e culturais que presidem à sua construção, nomeadamente as características dos materiais e as suas necessidades de utilização. E, falamos de projecto arquitectónico uma vez que, por mais elementar que seja o seu planeamento, sempre que alguém se propõe a edificar algo, tem sempre presente uma ideia, ainda que rudimentar, daquilo que vai construir – o projecto!

Tal como sucede com o vestuário, também a casa tem como função primordial o refúgio, a protecção e o bem-estar do indivíduo, afastado dos perigos que o rodeiam no exterior e onde possa encontrar algum conforto. Assim sendo, o Homem ergue a sua habitação tendo em linha de conta os materiais disponíveis, as características da paisagem, as ameaças que enfrenta e as suas próprias necessidades. Não admira, pois, consoante o meio onde se encontra, os homens tenham concebido uma grande diversidade de tipos de habitação, desde os iglos das zonas polares às casas em palafitas, incrustadas no rochedo das falésias ou sobre ilhas artificiais.

As condições climáticas determinam o estilo arquitectónico, mais soalheiras no litoral e abrigada nas zonas húmidas e frias, com terraços do tipo árabe no Algarve ou com o telhado em agulha para não reter a neve como sucede na Dinamarca. Em função da orientação predominante dos ventos, a forma e altura das chaminés. Ou ainda, para desfrutar da paisagem, as varandas alpendradas no piso superior mais a norte ou as casas térreas, indiferentes à monotonia dos campos mais a sul.

A casa era originariamente construída com os materiais existentes no local pois os meios de comunicação e transporte não permitiam ainda que fosse de outra forma. Assim sendo, encontramos a lousa nos telhados das aldeias transmontanas e o colmo nos antigos casebres do Minho, as casas de xisto na serra da Lousã ou as palafitas nas aldeias avieiras.

A sua concretização exigia o emprego de natural engenho na colocação dos materiais, na concepção das estruturas, o conhecimento da resistência e durabilidade dos materiais e da forma de aproveitamento para o fim em vista. Consoante as necessidades que determinam a dimensão e ordenamento dos espaços, a sua volumetria e funcionalidade, assim se teria de conceber pilares e traves que permitissem a sua construção. Sobretudo no Minho, a casa tradicional do lavrador possuía os estábulos do gado – ali designados por cortes – no piso térreo, constituindo simultaneamente um sistema de aquecimento centralizado de toda a habitação.

O concelho de Ourém situa-se numa zona de transição entre o Ribatejo, a Estremadura e a Beira Litoral, recebendo naturalmente de todas elas as suas influências. Do ponto de vista geográfico, a área a sul daquele concelho encontra-se situada no maciço calcário estremenho identificado pela serra d’Aire. Aqui, as habitações tradicionais são feitas de pedra, das quais as casas que foram dos videntes de Fátima e ainda o Museu de Aljustrel constituem exemplares dignos de registo. Porém, na área a norte do mesmo concelho, predominam os arenitos, razão pela qual as casas eram feitas de taipa ou com tijolo de adobe, por vezes caiadas com a cal proveniente das imediações, mormente do concelho de Alvaiázere.

O tijolo de adobe antecedeu o tijolo de barro a que os romanos designavam por tijolo burro em virtude da sua cor – asnus era a designação do animal em relação ao qual associaram a cor burrus – e o seu emprego na construção remonta às civilizações da Mesopotâmia e do Antigo Egipto, onde aliás, ainda se podem ver nos zigurates e nas mastabas, tal é a sua durabilidade e resistência, apesar da sua aparente fragilidade. Os tijolos de adobe eram tradicionalmente feitos com barro e palha, dentro de uma forma de madeira.

Porém, o aparecimento de novos materiais e técnicas de construção, o desenvolvimento dos transportes e das vias de comunicação e ainda a deslocação das populações tem determinado as alterações na paisagem em relação à construção, nem sempre produzindo os efeitos mais desejáveis. Em regiões do país onde a emigração se registou de uma forma mais acentuada são visíveis os reflexos urbanísticos e arquitectónicos, destacando-se na paisagem edificações por vezes desenquadradas do meio onde se encontram, não apenas devido às cores que exibem como ainda em relação aos seus elementos arquitectónicos. Contudo, temos de encarar a sociedade como algo de dinâmico, havendo apenas que preservar os nossos valores culturais, mormente a arquitectura tradicional como uma das marcas da nossa própria identidade.

(*) Jornalista, Licenciado em História


Fotos de exemplos de aplicação de materiais de construção tradicional >>>

Casas Tradicionais Portuguesas - desenhos>>>

Parede de habitação em "taipa">>>
 

Textos de Carlos Gomes - Index>>>

Outros Textos e Opiniões >>>

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