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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  Superstições relacionadas com a comida e o comer
 

Senhora do Fastio: quem tem fastio vai à capela da Senhora do Fastio, no Paço de Fontelo, em Viseu, e faz uma promessa de uma tigela, prato e colher, para sarar. Estive lá e vi exemplares. As colheres são de pau, toscas, as mais pobres, e de lata de estanho. A maior parte das colheres é de lata, de um mesmo tipo, baratíssimas; havia uma gaveta cheia delas.

O pão deve pôr-se na mesa com o lar para baixo; se, por qualquer motivo fica com o lar para cima, volta-se logo: porque não foi ganho de barriga para o ar (Columbeira, Peral).

É pecado espetar o garfo no pão. Quererá dizer que é espetar o corpo de Deus?

Partir o pão quente com a faca corta as forças de quem o amassou (Óbidos).

Pedaço de pão que cai ao chão apanha-se, beija-se e come-se: «Apanha-o, beija-o e come-o», ouvi dizer na Ucanha, em rapaz.

Em Mangualde, Óbidos, Mondim, se cai o pão ao chão, sopram-lhe e beijam-no.

Não devem comer treze pessoas à mesma mesa, morrerá a que tiver um nome maior (Vila Real). Não se deve estar dinheiro em cima da mesa enquanto se come; é sinal de traição ou pobreza (Vila Real).

Entornar água na mesa de comer dá azar e entornar vinho, alegria (Alentejo). Entornar azeite no chão e partir vidros dá azar (Alentejo).

Quando se dá de comer ou beber a alguém que se engasga, supõe-se que foi dado com má vontade, mas se se sabe que não, costuma dizer-se: «Olhe que não foi dado de má vontade» (Barcelos).

Quando se está a comer e vem um pobre à porta, não se deve dar perdão, dizendo: «Perdoe, vá com Deus» (arredores de Lisboa).

A razão será a de que haverá sempre a ideia de que um pobre pode ser Jesus Cristo, tal como ocorre nos contos populares.

Quem come um fruto pela primeira vez num ano benze-se com ele, dizendo: «deixa-me fazer novo. Em nome de Padre, Filho e Espírito Santo» (Alportel, Algarve). Nas mesmas circunstâncias, na Beira, diz-se: «Ano melhorano, Deus me deixe chegar ao ano.» Ouvi que, em Coimbra, quando se come uma coisa pela primeira vez, se formulam três desejos.

Num jantar em que há raparigas solteiras, se alguma oferece a um conviva palitos, não os deve escolher, senão não casa nunca, deve oferecê-los em conjunto (Lisboa e Castelo Branco).

Não é bom ficar com a toalha na mesa depois da comida, porque andam os anjos em volta, enquanto não se tira (Óbidos).

Não é bom aventar as migalhas da mesa ao lume, nem à rua, porque se aventa a fortuna (Tolosa).

Sacudir a toalha à noite para a rua é deitar fora o pão, isto é, impede-se que haja pão em casa (Lisboa).

Também se diz só: «Não é bom sacudir a toalha das migalhas para a rua.» Será por irem tocadas da boca e poderem fazer feitiço?

Será, apenas, porque são pão e este se não deve pisar?

Se depois de comer, vem o sono, é sinal de fortuna (Tolosa).

É costume, quando alguém abre uma garrafa com vinho, beber um pouco dele no seu copo. Diz-se que é por causa da cortiça. Não terá isto relação com o que se faz na África Ocidental, onde, quando se bebe vinho de palma, a dona da casa bebe primeiro, para «enlever le fetiche»?

Fonte: Etnografia Portuguesa - vol.VI, J. Leite de Vasconcelos


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