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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  Superstições com os animais
 

 

Ligadas aos animais, correm muitas superstições, das quais bastantes se incluíram noutros lugares. Agora ficam aqui reunidas umas, mais características, tanto de carácter geral como de aplicação a um ou outro animal.

Crê-se (por exemplo, em Mangualde e Lisboa) que é bom ter animais em casa, pois certas doenças, e até a morte, vão para eles, em vez de atacarem as pessoas.

Na idade Média a imaginação viveu imenso de crenças com base na vida dos animais, a que se atribuía influência, por vezes decisiva, na vida humana. Na literatura portuguesa da época encontram-se referências a obras com aqueles temas, em que se procurava na história natural o que parecesse mais útil à instrução religiosa, pelo seu interesse alegórico: os bestiários e os volucrários, manuais de história natural, escritos com intuitos moralizantes.

Quando nasce um animalzinho, em Pragança, baptizam-no, isto é, dão-lhe um nome e uns dias depois: Cabana (de galhos tortos), Riscada, Preta, Sara (de cor branca junto da boca!). A cada cordeirinho ou cabrito põem-lhe uma cornicha ao pescoço, por causa do quebranto. E também quando um animal tem diarreia atam-lhe ao rabo uma fita encarnada. O efeito maravilhoso do chifre é vulgarmente acreditado: um colocado na lareira repele os feitiços que queiram fazer ao dono da casa ou à sua família – Crê-se em Santa Eulália de Fermentões, concelho de Guimarães.

Frequentemente as superstições confundem-se com as crenças religiosas. Aceita-se (Évora, etc.) que o hálito das vacas é santo, porque Jesus nasceu junto de uma.

Quem promete cereais para uma festa manda-os pendentes de um jugo levado por dois bois. Os bois jungidos vão na frente da procissão, às vezes em grande número – por exemplo, quinze (Felgueiras, concelho de Moncorvo).

Santo Antão é protector do gado cabrum, lanígero e vacum. Quando há uma epidemia no gado, o dono deste promete uma rês ao santo para a epidemia passar. Na véspera da festa vai com o gado dar voltas à igreja, que tem as portas abertas: a primeira rês que se escapa para a igreja é a que fica pertencendo ao santo (Parede, concelho de Alfândega da Fé). Em Tolosa, S. Marcos é advogado do gado vacum; Santo Amaro protege especialmente as ovelhas e cabras, e a ele prometem um borrego, se o gado se criar bem. Santo António é advogado de todo o gado.

O patrono dos nossos pastores é S. João, que é representado com um cordeiro. Os pastores da serra da Estrela, nesse dia, vão lavar o gado ao rio.

 No Jarmelo, os pastores fazem cruzes, com anil ou almagre, na lã, para não dar o mal às ovelhas e para não entrarem as bruxas com ele. Quando nasce um borrego ou um cabrito, se é esperto dizem: «Tão castiço que é! Benza-o Deus!» ou «Santo António o guarde!». Se é fraco, dizem apenas: «Tão rélezinho que é!» (Não dizem «Benza-o Deus!»). No tempo das festas, os pastores levam o gado em volta da ermida, e às vezes nas procissões.

Em Seia há uma reza a S. Romão para espantar os lobos, mas S. Romão á advogado contra os cães danados. Também responsam os lobos, no Barroso, para não irem atacar o gado, quando ele fica no monte. Parece que é o responso de Santo António, mas a pessoa que me informou só se lembrava das seguintes palavras: «… se o bicho tivesse a boca aberta, que não a pudesse fechar; se a tivesse fechada, não a pudesse abrir…»

Fonte: Etnografia Portuguesa - vol.VI, J. Leite de Vasconcelos


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