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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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  Superstições relacionadas com a água
 

- A água benta tem grande virtude. Quando as mãos suam é bom mantê-las em água benta (Samodães).

- Dizem em Óbidos, Mangualde, Paços de Ferreira e Lisboa que, quando duas pessoas lavam as mãos juntas, em breve bulham. Nos Açores (S.Miguel), para evitar a briga, cospem na água.

- As águas de baptizar as crianças que não estejam baptizadas deitam-se em sítio onde não passe ninguém por cima e em que não dê o sol (Óbidos e Mangualde).

- Não é bom beber água de noite, porque ela está a dormir, e se não puder deixar de beber-se bata-se para a acordar e não fazer mal (Óbidos e Mangualde). Também em Carviçais, Moncorvo, se diz que a água dorme de noite, e em Baião, quando alguém tem sede de noite e quer beber água, é necessário deitar uma pinga fora e diz-se: «Acorda, água, que eu também já acordei!» «Vamos pelo que diziam os antigos»! O mesmo se faz na Beira Baixa, como se vê um trecho de Nuno de Montemor:

«- Para se beber, é preciso acordá-la primeiro.

- E como se acorda?

O velho serrano aproximou-se da cantarinha batendo três vezes no cântaro com os dedos nodosos.

- É assim…- ensinou.

E sacudindo a água verteu-a no copo confiadamente.

- Agora pode bebê-la à vontade…»

Em Óbidos (Peral) afirma-se que a água é corredia. Bebendo-a de bruços, à noite, a gente levanta-se com o Inimigo (Carviçais, Moncorvo).

- Bebe sangue quem num charco bebe por cima; se for por baixo, bebe matéria (Elvas; informação de António Tomás Pires).

- Não dão maleitas a quem bebe água por uma brecha (mina) nova de água (Cinfães).

- Quem urina num rego de água urina a fortuna.

- Se a água está fria quando se bebe, diz-se que não adivinha outra, i. é, não choverá (Elvas; informação de António Tomás Pires).

- Epostracismo: em Mangualde os rapazes costumam capar a água com pedras.

- Fecundidade

À porta de Dona Aldonça
Corre um cano de água clara,
A mulher que dela bebe
Logo se sente pejada…

- Leconomancia e hidromancia: em Mangualde e Óbidos levam água às pessoas que se supõem mordidas por um cão ou qualquer animal raivoso, porque vêem na água o animal que mordeu.

- Em Guimarães, quando as mulheres que têm o diabo no corpo vão á mulher benta, a Braga, para lho expulsar, deitam sal no rio ao passarem por ele (ouvido em 1884).

- Em Óbidos, quando vão buscar água á fonte, costumam escorrer bem o cântaro antes de saírem, porque, se levam no fundo algum resto, a fonte seca. Na Nazaré fazem o mesmo na fonte, para que a fonteiro não venha a casar com um bêbedo. As raparigas de …, quando iam à Fonte Velha, costumavam deitar uma gota de água na cavidade de uma pedra que estava ali perto. E no Alandroal, quando trazem o cântaro da fonte com água, atam-lhe uma junca ao gargalo para que a água se conserve fresca.

- Na Estremadura entornar água significa lágrimas, tristezas; por isso em Lisboa deitam-lhe vinho, porque entornar vinho é sinal de alegria.

Fonte: Etnografia Portuguesa - vol.VI, J. Leite de Vasconcelos


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