"(…) Nós, portugueses, estamos não nas vésperas, mas em plena fase de perdermos toda essa riqueza do passado. Se não corrermos rapidamente a salvar o que resta, seremos amargamente acusados pelos vindouros, pelo crime indesculpável de ter deixado perder o nosso património tradicional, dando mostras de absoluta incúria e ignorância. Se não o fizermos, daqui a duas gerações podemos ser um povo descaracterizado e profundamente pobre… (…)"  (Jorge Dias)

 

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Religiosidade, crenças e superstições

As ermidas, situadas no cimo de elevações sobranceiras aos povoados, atraem geralmente as romarias mais arcaicas. Segundo crença, que remonta à Idade Média, essas ermidas situadas no alto dos montes protegiam as populações, os seus gados e culturas. Eram fundamentais para a realização das procissões propiciatórias de ladainhas e de clamores que o cristianismo medieval e moderno tão bem acolheu. As que se situam no limite de freguesias passaram a ser frequentadas por populações vizinhas.

Na Ribeira Lima existem antigas e afamadas romarias como as de S. Silvestre de Cardielos (Viana do Castelo), S. Bartolomeu de Ponte da Barca, S. Bento de Ermelo (Arcos de Valdevez), S. Bento do Cando da Gavieira (Arcos de Valdevez) e de Nossa Senhora da Peneda (Arcos de Valdevez). Também existem grandes romarias de invocações modernas, caso da Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, da Nossa Senhora da Boa Morte da Correlhã (Ponte de Lima) ou do Senhor da Saúde em Sá (Ponte de Lima).

Os clamores eram procissões em que os participantes rezavam a cantavam o mais alto possível, em que se “berravam as preces”. Isso para que a petição ecoasse o mais longe e alto possível e, desse modo, chegasse aos céus. Nestes clamores, iam à frente os tamborileiros, espingardeiros e, por vezes, homens com foices e gadanhas, pois o barulho fazia parte dos ritos mágicos essenciais ao afugentar de males.

Os enterros de devoção, um costume muito usual no Norte de Portugal e no Sul da Galiza, praticavam-se no santuário da Peneda (Arcos de Valdevez), assim como noutros santuários da Ribeira Lima. Tratava-se de uma promessa em que uma pessoa, geralmente curada de doença, tinha de participar na procissão dentro de um caixão, fazendo-se transportar em funeral, como se estivesse morta.

O culto do Espírito Santo encheu a região de santuários e de capelas, mas foi sendo esquecido. Houve importantes confrarias do Espírito Santo em Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez. A devoção ao Espírito Santo esteve em voga, nos finais da Idade Média, quando se espalhou por Portugal continental e passou aos Açores.

A religiosidade popular apresenta outras velhas modalidades. Por exemplo, a crença de que, em certas noites, a freguesia era percorrida pela procissão de defuntos. A tradição apoiava-se em inúmeras histórias, como a de Beiral (Ponte de Lima), mas em muitos outros locais eram conhecidas idênticas narrativas. A crença em bruxas e no diabo também estava bem arreigada nas mentes populares. Do diabo todos tinham medo. Este aparecia, de noite, nos caminhos, nos terreiros e mesmo nos recantos mais escuros das casas. De lobisomens, pieiras de lobos e feiticeiras nem é bom falar! Até se conhecem locais assiduamente frequentados e peripécias com alguns daqueles que os tiveram de enfrentar.

Fonte: “Cores, sabores e tradições – Passeios no Vale do Lima”
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