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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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»» Música Popular Tradicional Portuguesa > Trás-os-Montes e Alto Douro Pub
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Os cantos transmontanos constituem umas das mais profundas e originais expressões da música regional portuguesa.

Não iremos, nesta breve notícia, embrenhar-nos em considerações acerca da filiação ou influências, remotas ou próximas desses cantos. Mas não há dúvida que, em múltiplas das suas feições, a música regional de Trás-os-Montes levanta perplexidades e interrogações que hão-de certamente apaixonar os estudiosos do folclore comparado. É possível que estes vislumbrem nela ecos ou reminiscências de expressões e formas musicais pretéritas, medievalismos, exotismos, a Igreja, a Sinagoga, os Gregos, os Árabes, tudo o que forma, ou supõe formar, o protoplasma do homem português e da sua cultura.

Note-se a extrema severidade desta música, destes cantos, o seu carácter despido de todo e qualquer sentimento ou preocupação de «agradabilidade», o seu «desenfeitamento», a sua cor terrosa -, o que tão bem vai com a paisagem de linhas e volumes duros, ensimesmados, com o génio rude, inteiro, da gente transmontana e o patriarcalismo dos seus costumes.

No seu lirismo sóbrio e penetrante, certos «romances» cantares  - como Malhaninha de S. João, Valdevinos, Malva-malveta, o Bendito e outros cantos repassados de vozes, ancestrais, bem se pode dizer a expressão pura do homem transmontano, parcela do homem universal, nos seus momentos de funda identificação com o espírito da Terra.

Em traços breves, apontemos alguns cantos, hinos sagrados, cânticos de trabalho, poemas de amor e de morte, entre os mais significativos do património musical do povo transmontano:

O Conde Ninho. (Também conhecido por Conde Nilo, Conde Aninho ou Conde Alcano). É uma cantiga de segada (ou de ceifa). À maneira do rito litúrgico, as cantigas de segada cantam-se três ou quatro vezes ao dia: de manhã, à tarde e ao pôr-do sol. A melodia é pentacordal (comum curioso ornato à segunda maior superior), alternando a terceira maior com a terceira menor, e pode supor-se, no seu carácter arcaico, protótipo de bom número de outros cantos que se encontram na região de Trás-os-montes.

Manharinha de S. João. Outro exemplo de romance (este de carácter religioso) utilizado nas segadas (11 horas da manhã). A melodia desenvolve-se no âmbito de uma oitava distribuída por dois cantores: um pentacorde inferior confiado à voz masculina, e um tetracorde jónio superior (à guisa de resposta), confiado à voz feminina.

Agora baixou o Sol. Cantiga de «malhas», utilizada também como cantiga de segada. É um fragamento do romano conhecido por Madalena.

Primitivo pentacorde (com ornato à segunda menor inferior), constituído por dois curtos inciosos, confiados alternadamente aos dois cantores.

Viste lá o meu Amado. Fragmento de um auto da Paixão. Trata-se de uma preciosa sobrevivência do canto litúrgico (salmodia e cantilena), na qual se é tentado a vislumbrar um embrião da Clássica forma dramática: recitativo-arioso.

Murinheira. Uma das mais típicas e saborosas danças trasmontanas (como o Passeado e a Carvalhesa). É acompanhada de gaita de foles, pandeireta e ferrinhos.

Dona Ancra. Belo romance talvez corruptela ou deformação sónica de Dona Ângela, romance vulgarizado em Trás-os-Montes e em Espanha, nesta conhecido pela designação de La novia del duque de Alba.

Deus te salve, Rosa. Encantador romance pastoril. A melodia em maior e de regular ritmo binário, semelha uma graciosa ronda infantil.
 

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Guia de Portugal, organizado por Sant'Anna Dionísio, V volume (Trás-os-Montes e Alto Douro), editado pela Fundação Calouste Gulbenkian

 
   

 

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