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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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»» Música Popular Tradicional Portuguesa > Portugal – Raízes musicais | Recolhas da tradição oral Pub
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  INTRODUÇÃO

(…) Importa realçar alguns aspectos fundamentais que contribuem para a riqueza da nossa tradição musical popular: antes de mais, a polifonia vocal. O nosso canto polifónico popular terá a sua origem nos cantos litúrgicos da Igreja Católica e apresenta-se mais comummente a duas, mas também frequentemente a três e a quatro vozes reais.

Ocorre tanto nas manifestações religiosas, quer litúrgicas (Benditos, Aleluias) quer extra-litúrgicas (Encomendação das Almas) como nas profanas, sobretudo em certos trabalhos agrícolas (sachas, desfolhadas, mondas, amanhos do linho, etc.). É assinalado praticamente por todo o país com particular  riqueza no Minho, Douro e Beiras, sendo que no Ribatejo e Algarve haverá que aguardar ulteriores investigações a este respeito.

No campo instrumental, para além da gaita-de-foles (existente em Trás-os-Montes e no litoral oeste desde o Minho à Península de Setúbal), há a assinalar a riqueza musical da viola e da guitarra. A viola portuguesa, nas suas múltiplas variantes regionais, descende do instrumento aludido pelo Padre Juan Bernardo no séc. XVI (“guitarra”, parente popular da vihuela e descendente da “guitarra latina” trovadoresca) e era tocada por todo o país. Hoje subsiste apenas no Minho, Douro Litoral, Beira Litoral, parte da Beira Alta, Baixo Alentejo, Madeira e Açores.

A nossa guitarra descende do instrumento que tomou o nome de cítara no Renascimento, o qual por sua vez provinha da cítola medieval. Era instrumento favorito da joglaria e, ao que tudo indica através dos jograis, ganhou as classes populares e atingiu depois dimensão nacional. O seu enraizamento popular é assim muito anterior ao nascimento do fado, não devendo, pois, associar-se o instrumento exclusivamente com este género. Esse enraizamento é visível em todas as províncias e regiões, quer simplesmente a acompanhar o canto, quer na música bailada. (…)

 

»» Minho e Douro Litoral
A imagem mais corrente e divulgada do folk-lore musical minhoto e duriense é a da sua alegria, de algum modo correspondente a uma certa superficialidade. Pensa-se só nas festas e romarias, nos trajos vistosos carregados de ouro da Senhora da Agonia. Foi esta a ideia que o turismo divulgou, o estereótipo que criou. Mas a par de povo alegre e folgazão, o minhoto e o duriense são também extremamente trabalhadores e profundamente religiosos e daí que a sua música esteja igualmente ligada aos amanhos da terra e às práticas litúrgicas e extra-litúrgicas que o catolicismo implantou nesta região.

 

Fonte: José Alberto Sardinha, in “Portugal – raízes musicais”, edição do JN (1997)

 

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