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“A designação de Literatura Popular, literatura do povo, associa
uma entidade social que as mais das vezes não usa a escrita para
representar a sua arte verbal. E, se assim é, o vocábulo literatura, no
seu sentido próprio, não serve bem o fenómeno a que se aplica. (...)
Outra designação é a de literatura tradicional. E esta se nos
afigura mais desajustada ainda do que as anteriores. Tradicional
significa o que é transmitido de geração em geração, o que vem de longe,
que tem uma certa duração no tempo e vai nele vivendo. Teremos, por
isso, que eliminar a invenção recente que ainda não passou à voz do povo
ou que, por ela passando, com pouca demora, se poderá extinguir.
Dizer literatura oral e tradicional é juntar os dois adjectivos
sem anular a referida contradição e com exclusão da sua parte escrita.
Mas tornemos à literatura popular que, apesar de sua relativa
impropriedade, é a de mais extenso significado e a que prefiro. A
locução tem dois sentidos: o de produção literária de eruditos destinada
ao povo ou que, sem essa intenção o povo adopta - Gramsci até a designa
de literatura popular artística - e o de obras literárias de invenção
popular. E escusado dizer que não estamos a pensar em elaboração
colectiva. A obra literária é individual, depois, de boca em boca, de
tal modo se conforma com o sentir do seu intérprete, que ele a tem como
sua. «Mantém-se o tema fundamental, mas os acidentes mudam e, de tal
sorte, que quase se pode afirmar que a cada exibição a peça se recria:
uma sucessão de variantes em que muitos colaboram, cada um por sua vez,
sem lhe pôr assinatura». No longo trânsito por que passa se vai
tornando anónima até perder de todo o seu autor de origem.”
Manuel Veiga Guerreiro, in Literatura Popular: em
torno de um conceito. |
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