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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Fátima

Manteigas, na Serra da Estrela, é uma vetusta povoação que já no tempo da romanização possuía uma certa importância. Na época da dominação muçulmana, teve direito a alcaide ou emir, autoridades que a tradição popularizou sob a designação de reis.

A cerca de duas léguas de Manteigas ergue-se o píncaro de Alfátema, o cabeço mais elevado da serra da Estrela, amiúde revestido de alvo manto de neve. De Alfátema falará a nossa lenda, que se passa nessa época em que o montante cristão não dava descanso ao alfange muçulmano.

Os mouros iam perdendo terreno de combate em combate, e a perseguição que os cavaleiros cristãos lhes moviam era tão rápida e implacável que se lhes revelava impossível pôr a salvo todas as riquezas que tinham acumulado ao longo dos séculos. Assim, escondiam os tesouros nos sítios que julgavam mais adequados, ocultando-os muitas vezes por artes mágicas, o que levava o povo a dizer que eles estavam guardados por mouras encantadas.

Conta a lenda que o rei mouro de Manteigas tinha uma filha, chamada Fátima, e que era formosa como uma visão magnífica do Paraíso de Alá. Os cristãos das vizinhanças empregavam todos os seus esforços para se apoderarem do território do Rei, da sua Fátima tão linda e de todas as suas jóias e bens.

Ainda quis resistir, o rei, abrigado como estava dentro do seu castelo. Ma s o número dos assaltantes era tal que lhe pareceu loucura ficar e resolveu fugir pelos carreiros escusos da serra, levando a filha e o que das riquezas ainda não pusera a salvo.
Era madrugada quando fugiram de Manteigas por uma pequena porta dissimulada nas muralhas. Andaram, andaram todo dia por entre penedos e escarpas e, ao anoitecer, Fátima morria de cansaço e não conseguia dar nem mais um passo porque os seus pés estavam em chaga. Que fazer ali no sítio mais solitário da serra? A Quem pedir socorro naquele momento terrível?

Subitamente, abre-se-lhes em frente um caminho esplêndido, todo ele florido, calçado de pedras finíssimas e iluminado, lá no fundo, por um foco de luz tão intenso que mais parecia provir de uma estrela particular. Alá fizera o milagre! A esperança renasceu em todos os corações e, num inesperado alento, entraram na senda que se lhes abrira como se nesse momento tivessem começado a caminhada. Ao fundo da estrada, a luz que haviam divisado revelou-se-lhes um palácio resplandecente, tão cheio de magnitude que se quedaram estarrecidos.

O que depois se passou ninguém o soube, mas, nos dias imediatos, os serranos viram subir e descer a encosta vários pastores totalmente desconhecidos na localidade. Duraram algum tempo aquelas idas se vindas ao Coruto de Alfátema, como chamavam àquele sítio, e um belo dia os pastores desapareceram sem deixar rasto. Os pastores desconhecidos eram mouros disfarçados e foi por indiscrição de uma deles que se soube que uma fada boa, madrinha de Fátima, a guardaria no seu palácio encantado do Coruto, sempre jovem e formosa, até ao dia em que os fiéis sectários do Corão reconquistassem Portugal.

Tão arreigada ficou esta crença no espírito dos serranos que, durante os séculos XII e XIII, as pessoas várias vezes entraram em pânico por acreditarem ver chegar, ao longe, os esquadrões mouriscos em busca da bela Fátima. E a lenda tomou ainda mais corpo no espírito crédulo dos aldeões quando, alguns anos depois de os cristãos terem tomado Manteigas, aconteceu o que vamos contar a seguir.

Um dia, uma mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar na madrugada de S. João no Coruto de Alfátema. Fatigada, sentou-se a descansar num penhasco enquanto ia comendo uma côdea de broa que trazia. O pão era duro de muitos dias e, quando a mal-aventurada ia a dizer mal da sua vida, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos. Comeu uns quantos, feliz por quebrar inesperadamente a sua pobre dieta, e, lembrando-se dos filhos, encheu deles uma cesta que levava.

E, rápida e alegre, dirigiu-se à sua choupana, antegozando a alegria das crianças ao comerem os figos. Mas, uma vez chegada a casa, ai destapar a cesta, ficou pasmada: no lugar dos figos encontrou diamantes e moedas de ouro, tudo reluzente e novo.
Estava rica! Mas a mendiga de há um minuto, conformada com o naco de pão duro, sentiu a mordedura da ambição. Não lhe bastando o que já tinha, quis tudo o que ficara no Coruto e voltou a correr ao local onde deixara os restantes figos.

Entretanto, Sol subira no horizonte e estava agora no meio de um céu sem nuvens. Passara a hora dos encantos e, dos figos, a mulher encontrou apenas o lugar. Desesperada, começou arrancar os cabelos e ia blasfemar quando uma voz suavíssima – a de Fátima, sem dúvida – caiu sobre si cantando:

Era teu tudo o que viste:
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza
Pode matar-te a ambição!

Fonte

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