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Os
pastéis de toucinho, também conhecidos por pastéis de Vila Real e,
mais recentemente, por cristas ou cristas de galo, são uma criação
das monjas do Convento de Nossa Senhora do Ampara da Ordem de Santa
Clara e certamente uma das espécies mais representativas da doçaria
conventual vila-realense, que compreende igualmente os pastéis de
Santa Clara, também conhecidos por viuvinhas, as laranjas de Vila
Real, hoje tigelinhas de laranja, a fruta coberta, as frutas de
conserva, a marmelada e o arroz doce, que na altura levava amêndoa.
Os pastéis de toucinho (às vezes impropriamente chamados de
tocinho-do-céu) eram consumidos no convento na 5ª feira gorda ( a
seguir ao Carnaval) e confeccionados igualmente nos momentos em que
se distribuíam as «obrigações» que o convento teve e manteve ao
longo de toda a sua existência, e estavam consignadas por escrito.
Na véspera da festa de Santa Clara, no Sábado de Ramos e no dia do
patriarca da regra de São Domingos (que tinha um convento em Vila
Real), saíam as criadas do convento com enormes tabuleiros, caixas e
malgas, a fazer distribuição dos pastéis e outras especialidades
pelos elementos do Senado Municipal, pelas justiças, pelos
serventuários do convento (médico, sangrador, capelão, acólitos,
sacristão, pregador da Quaresma, procurador), pelo prior de São
Domingos, pelo boticário, serralheiro, cerieiro, marchante, ouvidor,
juiz de fora, vigário gera, síndico e mais justiças que na ocasião
se achassem em Vila Real.
Foi de resto através destas criadas, à medida que os conventos
encerraram ou perdiam a sua importância, que os segredos e receitas
vão passando para as casas particulares e para as lojas. Torna-se
assim possível encomendar e adquirir no exterior grande parte destas
especialidades conventuais.
Há 60/80 anos, a receita dos pastéis de toucinho ainda era
partilhada por algumas, poucas, casas vila-realenses, que os
confeccionavam exclusivamente pelo Carnaval. Nessa altura podiam
também ser adquiridos a fabricantes particulares, como a Teresa na
Rua Direita, a Preciosa na rua 31 de Janeiro (mais precisamente no
enfiamento da Rua da Travessa, hoje Rua Avelino Patena) e
anteriormente na Rua Direita, a Filomena na Rua Camilo Castelo
Branco (que algumas pessoas ainda se lembram de ver na rua, com
grandes tabuleiros, vendendo pastéis de porta em porta), e a Maria
Preciosa na Rua de Carvalho (hoje Rua D. Pedro de Castro), e na casa
Fafoa e Padaria Vilarealense (Lapão). |