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Fumeiro e Enchidos
«(...) É destes
[dos porcos] que se tem de partir para chegar à trindade tradicional
do reino: os presuntos, as alheiras, os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz
de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe
do silêncio. Dias depois desmancha-se a bizarma, e um pálio de
fumeiro cobre a lareira.
Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove... E há-de
encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto
a neve cai, o perfume das graças dadas por alma dos que Deus tem, a
magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma
ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou
da Índia.»
(Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso) |