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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Depois das segadas

 

Antes de fazer as acarrejas do pão para as proximidades das eiras, havia que cuidar do chão de cada uma delas, segundo as condições em que cada uma destas se encontrassem. Faria falta varrer o chão, ou rapar-lhe alguma erva com as enxadas, pondo-o bem limpinho. Depois disso, vinha a operação mais característica do aformoseamento do seu rosto:

Ia-se pelas lojas do gado vacum à procura de umas largas caldeiras de bosta fresca. Transportava-se para a eira, dissolvia-se de modo a poder servir de pasta mole com que toda ela ficasse bem coberta. Usavam-se alguns vasculhos de giesta para alisar o melhor possível a leve camada daquela espécie de goma que, em secando pela acção do sol, resistia ao duro bater dos malhos, às agressões dos restantes serviços, e continuava até ao Outono, para receber, v.c., a colheita do feijão ou do milho.

Era a operação dita, na Castanheira, de embostar, isto é, deitar ou aplicar a bosta. Sendo um trabalho sujo, contribuía eficazmente para que o grão dos cereais se recolhesse limpo de terra e areia.

Como a coisa mais natural do mundo, fazia parte do ritual da vida, na sequência do rodar do tempo, ou como quem queira: do rodar dos milénios que compõem a História da Humanidade.

Era um momento em que qualquer pessoa, ainda mesmo que de muito respeito, conseguir mandar àquela cousa um filho, uma filha, a própria esposa, sem o advir do menor melindre. E até daí jorrava, tantas vezes, no encontro entre vizinhos a pedir a dita cedência, o que de mais jocoso oferecesse a veia do bom humor...

As acarrejas

O cereal, depois de segado e atado, ficava em rodas. A roda era um conjunto de molhos dispostos de pé, encostados uns aos outros e formando uma espiral.

Correspondia cada roda de molhos a uma carrada com cerca de vinte pousadas o que equivalia a vinte alqueires de grão, pois que uma pousada (eram quatro molhos em cada uma) dava um alqueire de pão.

Com essa disposição, o pão aquecia ao sol, acabando de secar a palha e o grão. Alguns dias depois, de cada roda era feita uma meda, chamada morneiro, onde o pão continuava a fase de amadurecimento. Depois, os vizinhos ajudavam-se uns aos outros, quanto ao transporte do pão para as eiras, ao que se dava o nome de as acarrejas.

Este trabalho comunitário obrigava as donas de casa a usarem da sua acção providente, para oferecerem comida que correspondesse à generosidade da prestação gratuita dos vizinhos. Matava-se um frango ou um coelho, ou ia-se ao carniceiro comprar chicha, como soi dizer-se na aldeia de Cimo de Vila, onde havia dois ou três "chicheiros" que todos os dias costumavam ter carne de cordeiro para servir o povo.
 

Cantigas da segada>>>

 
in Velhas Canções Trasmontanas, de António da Eira, 2005, edição do autor

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