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As espalhadas ou varridas

 

Quando os malhadores estivessem quase a acabar de malhar o eurado, levantavam alto e bom som o aviso com que chamavam o povo para a espalhada. Ela consistia em erguer a palha e sacudi-la para deixar cair todo o grão, começando no fundo da eira e terminando no cima, uma vez que esta se encontrava acamada e assente, à conta da norma de astrar.

Os homens, por regra, levantavam a palha. As mulheres iam ajudando a levantar alguma palha também, ou a fazer os molhos para os rapazes mais desenvoltos e possantes levarem para o palheiro. Este ficava num canto qualquer, num espaço de terreno livre. Havia um palheireiro que fazia o palheiro, coadjuvado por alguns rapazes. O palheiro tinha de ficar bem certinho a toda a roda, e à maneira de um cone feito com mestria e colmado a preceito para a chuva não lhe entrar. Importava que a palha não apodrecesse, pois que se destinava a estrumar as lojas dos animais domésticos. Servia de cama a estes, e depois, na época das sementeiras, ia-se com ela adubar as terras.

Retirada toda a palha do eirado, engaços e basculhos limpavam os coanhos. Estes eram apertados em molhinhos muito bem feitos, por meio de dois grandes vincelhos dispostos em cruz no chão e levantados por duas pessoas até à altura do peito, à medida que outros os iam colocando com mãos delicadas, até que bastassem. Em seguida eram levados para qualquer barraco de arrumações, sendo depois dados como alimento sobretudo aos cavalos e aos jumentos.

Feita a espalhada, todos os que pudessem, ajudavam a lançar novo eirado de pão, se o houvesse para malhar.

Note-se que os lavradores maiores enchiam a eira várias vezes, tendo malhada para dois dias ou três.

Cada terra, com seu uso,
Cada roca com seu fuso

É o ditado que legitima todos os usos e costumes. Por isso aqui surge a brandura da palavra “eirada” no seu terno e delicado tom feminino, usada em Cimo de Vila.

Como se pode imaginar, as varridas eram trabalho específico das mulheres que já compareciam com as respectivas vassouras para varrer o cereal, das bordas para o meio da eira, no que eram auxiliadas também por alguns homens que estivessem disponíveis. O grão ia sendo empurrado com as “testeiras” dos engaços ou puxado com o rodo, se o houvesse. Ficava em monte na eira o mínimo tempo possível, para utilização de outros eventuais usufruidores, ou para alguém que não tivesse eira nenhuma.

O pão, como ficava cheio de pó da palha e seus detritos, bem como de “estriganas”, tinha de ser libertado dessas sujidades. Dantes, usava-se a pá da eira, com que se atirava o pão para longe do montão em que ficava junto, de maneira que na distância percorrida, ficasse limpinho e pronto para ensacar e ser levado para as tulhas ou para as grandes caixas onde costumava ser armazenado.

Naquelas horas de calor e para mais com o pó da eira, a delicadeza da dona de casa não deixava de levar ou mandar levar á eira os gomis de vinho com laranjada ou abundantes refrescos.

Muitas vezes esta operação de limpeza do grão era feita por algumas mulheres que, em sítio de correntes de ar mais fortes, levantando-o em bacias até á altura da cabeça, o faziam descer bem compostinho e lentamente, com jeito e destreza, para a corrente de ar varrer com a terra o pó e toda a sorte de detritos.

O pão caía livre de impurezas sobre um lençol ou uma qualquer manta de farrapos.

 

A moda das varridas>>>

 
in Velhas Canções Trasmontanas, de António da Eira, 2005, edição do autor

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